Uma questão de cultura

Cultivar o espírito humano é tarefa nunca acabada
0
106

A cultura portuguesa, como aliás a de qualquer nação, é um legado de séculos e de histórias que vão marcando o espírito e formando a identidade lusitana. A diversidade de povos e costumes ao longo dos anos. As eras das invasões romanas e árabes, bem como as sociedades que as precederam, deixaram os seus vestígios e um legado cultural e arqueológico visível em todo o território português.

Desde as pinturas rupestres de Foz Côa, aos vestígios romanos espalhados por tantos lugares, à arquitectura árabe, românica, gótica, barroca, maneirista ou contemporânea, há um legado imenso do que fomos e do que somos, numa valorização do que desejamos vir a ser. A herança cultural tem fomentado turismo, tem buscado ser motivo de crescimento económico e de valorização do património e na defesa de uma identidade.

Há quem coloque à cultura barreiras e até delimite em que quadrantes ela acontece. Elitista, intelectualizada, popular ou pimba são adjectivos que a qualificam, que a caracterizam e parecem delimitar o público-alvo.

Faz-se do saber e da marca identitária de um povo um sectarismo que, às vezes, parece ele mesmo ser “xenófobo”, que posiciona os portugueses que ouvem música clássica num patamar mais elevado aos que se deixam encantar pelas quadras populares do folclore tradicional. E agora, nesta era em que a cultura se fechou entre quatro paredes, tantos se tem dito e debatido o como será a sua sustentação, a de quem a promove e quem a faz. Os apoios do Estado são escassos e muitos são os compromissos de um Verão sem festivais, de salas com espectáculos cancelados e adiados, de operacionais sem poderem usar meios técnicos, de empresas que vivem como as formigas, trabalhando o Verão para passar o Inverno.

E nesta preocupação, não há como não lembrar a alegria das nossas pequenas comunidades, das aldeias e vilas da nossa Beira, que ganhavam vida durante a “festa do santo”, que fomentava economia, que criava oportunidades, que estabelecia laços e devolvia esperanças, aos que vêm viver o tão desejado Agosto que não é igual lá fora.

A pandemia impede-nos de tudo isto, impede-nos de fomentar a cultura popular ou elitista, impede-nos de nos enriquecermos seja lá de que forma for e obriga-nos a encontrar o entretenimento e a formação nas redes digitais, capazes de criar o melhor e o pior em nós.

Precisamos de reinventar as nossas expressões culturais. E não deixar que a ignorância do ser sobressaia, diante do enfraquecimento do nosso saber. As lutas ideológicas e a defesa dos mais elementares e essenciais valores humanos não podem dar lugar a expressões de violência, de vandalismo e de miserabilidade.

O recente episódio da vandalização da estátua do Padre António Vieira é um exemplo claro dessa falta de cultura, não apenas a dos livros de história ou literatura, mas de respeito pelo património e do bem comum.

E daqui, de um péssimo exemplo do que somos, surge um grito à civilização do século XXI: cultivar o espírito humano é tarefa nunca acabada e que não se faz com os “trocos” que sobram do Orçamento de Estado. É tarefa de um Governo dar cultura como o pão de cada dia. Só assim se constrói a sociedade fundada em valores sólidos que promovam a dignidade humana e que não coloquem em nenhum dos seus sectores aquela superioridade que todos rejeitamos, mas que às vezes parece dar jeito a alguns.

Deixe um comentário