Uma quarentena

A nossa Quaresma, em verdadeiro sentido cristão, exige que nos retiremos dos nossos ruídos e barulhos digitais e desenfreados
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Já lá ia longe o tempo em que se ouvia falar das longas quarentenas a que eram sujeitas tantas pessoas que, por um motivo ou outro, se viam afastadas do convívio social ou das simples relações familiares. Esse tempo voltou e com ele um pânico que salta as fronteiras da Ásia, que parece ameaçar a humanidade com o corona vírus que vai matando desenfreadamente.

É mais um abanão para a nossa pós-modernidade, tão envolta em saber científico e certezas de auto-subsistência, que só comprova a nossa vulnerabilidade diante do desconhecido e a nossa impotência na ausência de armas científicas.

Este surto ou epidemia, como se viesse repetir o século XIV, é, em si, um drama, nalguns casos uma tragédia, que faz reconhecer a nossa limitação e fraqueza, sobretudo, quando já pensamos que dominamos o mundo. Comprovamos isso quando muitos, como nós, têm de ser afastados, retirados do meio de nós, para que os perigos de infecção e contaminação não coloquem em risco toda a natureza humana. A “quarentena”, neste caso, não é apenas medida de prevenção pública, é também um acto de consciencialização de como a história se repete, inadvertidamente, em ciclos e de que afinal há forças superiores à nossa frágil condição.

A palavra “quarentena”, cuja raiz etimológica aponta para o número imperfeito, em sentido bíblico, e entendida no sentido do “Krónos” grego (tempo) tem também uma abordagem positiva. Ela aponta para um espaço temporal em que a pessoa se salva, de um perigo a que está eminente. É assim também a interpretação que podemos dar à Quaresma que se iniciou ontem mesmo.

Apesar do peso sócio- cultural que ela possui, a Quaresma, é muito mais do que um conjunto de tradições e hábitos, alguns deles medievais, que acompanham os ritos cristãos de quem se prepara para a Páscoa. Esta valorização das tradições quaresmais a que assistimos, muitas delas, vistas apenas como “cartaz recreativo” pode fazer-nos cair no erro de não darmos valor ao seu sentido primeiro, que é o de nos “isolarmos” para recriarmos a nossa relação com Deus.

Esta é a “quarentena” cristã que está para além das abstinências e jejuns, das procissões e sermões, das penitências e obrigações morais. A nossa Quaresma, em verdadeiro sentido cristão, exige que nos retiremos dos nossos ruídos e barulhos digitais e desenfreados, que nos afastemos dos hábitos rotineiros e egoístas, que nos abneguemos de muito do nosso ter para criar espaço / tempo à relação com o Divino e assim nos fortalecermos n’Ele.

É como que uma experiência que repete os quarenta anos de êxodo no deserto ou os quarenta anos vividos sob o jugo da Babilónia, é uma “repetição” dos quarenta dias e quarenta noites de Jesus no deserto em que “por fim sentiu fome” (Lc 4, 2). É a quarentena necessária para uma forma saudável de estar na vida, onde uma espiritualidade bem trabalhada é capaz de se manifestar em muitos dos ambientes, lugares e pessoas com quem interagimos.

Afinal, estar de quarentena, apesar de ser difícil, é somente um processo que conduz a uma salvação, da vida, e não apenas do agora, entenda-se!

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