Um Deus que grita

É obrigatório saudar os que estiveram e continuam na linha da frente, mesmo sem sabermos onde começa e termina essa linha
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Um mês e meio depois, eis-nos na tinta fresca deste papel que há mais de 100 anos não falta ao seu compromisso social de dar voz aos que não têm voz, de estar perto dos que estão longe, de se colocar “No Centro da informação”, mesmo que as lutas e os desafios sejam muitos.

Não faço o elogio do Notícias da Covilhã, ainda que o mereça, porque em breve completa 101 anos com este título, e não desiste de tentar uma e outra vez, de se reerguer diante das dificuldades, e as atuais não são pequenas. Faço o elogio, sim, aos que não cessaram de exercer o seu papel, de dar o seu contributo, de animar e trabalhar por todos nós, quando muitos tiveram deixar de o fazer, quando outros se viram obrigados a isso.

Aproveitei este nosso regresso ao papel para lembrar a complexa e robusta cadeia de interdependências, que nos sustentou durante este mês e meio. A lista dos que a ela pertencem é enorme: desde o olhar sobre o pão do pequeno-almoço até à sopa do jantar quantos não foram os que trabalharam por nós, para que não nos faltasse nada e com isso trouxéssemos a vida à vida.

Uma visita aos bastidores do nosso confinamento e ao nosso estado de emergência fazem-nos perceber uma vez mais que “ninguém se salva sozinho, estamos todos no mesmo barco”. A máquina de Raio-X da existência permite ver que no interior destes tempos, tão novos e tão estranhos, estão muitas mãos anónimas.

Nesta rede de interdependências estão, não apenas os médicos e enfermeiros, heróis no meio do combate, mas tantas classes de profissionais, neste ou naquele campo que não deixaram que o mundo parasse e se vergasse completamente ao invisível que nos feriu.

E agora é preciso valorizar esse contributo, essa tarefa social de quem trabalhou e se esfoçou, além de um desejo de ordenado ao fim do mês, mas com verdadeiro sentido de missão e de entrega à causa: o bem do outro, o bem comum.

No início de uma nova “era pós- Covid” é por isso obrigatório saudar os que estiveram e continuam na linha da frente, mesmo sem sabermos onde começa e termina essa linha, mesmo sem percebermos o simples e mais pobre dos contributos, dos quais beneficiámos.

Não foi apenas o jornalista que transmitiu a desenfreada informação sobre o número de infetados, mortes e curados. Não foi apenas o distribuidor do pão ou funcionário da caixa do supermercado que nos trouxeram o alimento. São muitos rostos, escondidos atrás de viseiras e máscaras que escondem o sorriso típico de quem dá sem esperar nada em troca. São muitos os que merecem esta palavra de consideração e respeito, são muitos os dignificadores desta nossa nova forma de viver.

A eles o nosso OBRIGADO!

A justa retribuição disso mesmo é a renovação da nossa forma de estar e de agradecer. Precisamos de a recuperar! Há um novo olhar que nos é exigido, um olhar para além da crítica, do “apontar do dedo”, do dizer só por dizer. Este é o tempo de valorizar e reconhecer que o colocar em causa a vida, o risco de se ser infetado, para trabalhar pelos outros é o verdadeiro sentido da doação, é a verdadeira religião!

Afinal, o grito de Deus era tão estridente e ninguém o queria ouvir.

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