Um abraço à minha cidade

A Covilhã merece e precisa que dela se ocupe quem a ama
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Cada vez mais vai faltando o abraço nos nossos hábitos sociais e fraternos. Escrevemo-lo no final das muitas sms que enviamos, “mandamo-lo” para o ar ou por alguém, mas ainda assim ele não se realiza, não se consuma, não acontece e faz falta.

O abraço é colocar o coração junto do outro coração e sentir a pulsação do que nos vai na alma, no pensamento, nas emoções e no fundo em todo o ser. E faz falta.

A Covilhã cumpre nestes dias 150 anos e precisa deste abraço.

Não que ela não o sinta, mas reclama-o a todas as horas. A Covilhã merece e precisa que dela se ocupe quem a ama e a reconhece como berço e leito de morte, como cidade de toda a vida ou de passagem, como terra dos que nas fábricas se deram e lhe deram vida e terra dos que aqui vêm buscar perspectivas de um futuro exigente, que nos pede uma preparação superior.

A Covilhã merece um abraço de reabilitação do seu centro histórico, na recuperação de tantos telhados caídos que a nova arte de rua vai disfarçando e o negócio imobiliário procura aproveitar. Há um coração da cidade a renascer, mas que ainda precisa de tanto…

A Covilhã merece um abraço de cultura, merece ver o emblemático Teatro Cine a ganhar vida e trazer teatro, música, poesia e luz para a alma aos covilhanenses. A cultura eleva o espírito e não se compadece do que apenas por cá se vai fazendo, porque o que por cá se faz é muito bom, mas a Covilhã precisa de mais dessa luz que nos faz subir a escada do sonho e nos cria a ilusão dos poetas a chegar a um sétimo céu, que nos é legítimo.

A minha cidade merece um abraço de inovação e atração de investimento, de preocupação com um futuro sustentável e que garanta que a vida urbana se suporte a si mesma com os riquíssimos recursos que em si possui e guarda, sem esperar que eles cheguem de fora.

A cidade merece um abraço de atenção para com cada aldeia, cada vila ou pequeno lugar onde os acessos já estão abertos, mas as dificuldades de comunicação ainda não são vias abertas e os serviços são deficitários para as necessidades de quem aí se gasta em garantir a vida rural que é fonte de atração turística.

A cidade merece um abraço por todo o esforço que faz em se manter no mapa da saudade de tantos dos que por aqui passam e a guardam na memória das afectividades, sentido cada subida, cada escadaria, cada beco e recanto como seu, mesmo que de amores se tenha feito essa saudade.

A Covilhã, merece este abraço por toda a resiliência de quem luta contra a interioridade e a desertificação ou o envelhecimento que a vão marcando. Merece este colocar o coração no seu coração e sentir que cada uma das pedras das históricas ruas que a desenham são nossas, são preocupação nossa, são o nosso património, são a nossa história feita de altos e baixos, de conquistas e perdas, de desenvolvimentos e de paragens no avançar, mas é sempre a nossa Covilhã.

O Cardeal Tolentino Mendonça, no Dia de Portugal deste ano, discursando à nação, dizia que o “amor a um país pede-nos que coloquemos em prática a compaixão”. Eu atrevo-me a usar estas palavras para fazer o apelo ao amor à minha cidade: “compaixão e fraternidade não são flores ocasionais. Compaixão e fraternidade são permanentes e necessárias raízes de que nos orgulhamos, não só em relação à história passada mas também àquela hodierna que o nosso presente escreve”.

O meu abraço à Covilhã!

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