Supermercados de bairro sem mãos a medir

As pessoas evitam os aglomerados de gente nas grandes superfícies e as mercearias ganharam maior movimento, por estarem mais próximas de casa
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O novo coronavírus, responsável pela pandemia da covid-19, tem sido sinónimo de mais horas de trabalho para os supermercados de bairro, que viram a procura aumentar. Apesar de alguns terem reduzido o horário de atendimento ao público, depois das portas fechadas é preciso limpar a fundo e repor o que foi levado das prateleiras.

Na primeira semana de recolhimento da maioria da população, Sandra Martins, da loja Mais Perto, só saiu por volta das 20h, com a quantidade de produtos que havia para arrumar nas prateleiras, apesar de ter encurtado o horário de atendimento ao público das 8h às 14h. “Se estamos abertos mais tempo, há mais gente na rua”, justifica, enquanto na rua cafés e a quase totalidade dos estabelecimentos comerciais estão encerrados. “Tenho chegado a casa muito cansada”, desabafa a empresária, com mais lojas e fabrico próprio na Padaria do Centro.

População sai menos e leva mais

Desde que a população começou a ficar mais consciente dos riscos, aumentaram as vendas no supermercado. Alteraram-se os hábitos de consumo. “As pessoas levam mais. Há quem só vinha comprar o pão e agora leva mercearia e outras coisas”, conta.

O mesmo aconteceu na Mercearia dos Penedos Altos. Cristina Conceição, 52 anos, notou um aumento no número de clientes e nas vendas. “As pessoas saem menos, passaram a levar mais do que o costume”, informa, através da divisória em acrílico que mandou fazer, e que lhe vai custar “entre 150 a 200 euros”. É um investimento que preferia evitar em tempo de incerteza, mas que entende justificar-se para “aumentar a segurança”. “Quem está do lado de lá está mais à vontade e nós também estamos mais à vontade”, comenta.

Álcool e sabão azul esgotou ainda as pessoas não se tinham começado a recolher. Já conseguiu voltar a ter nas prateleiras sabão rosa. Os outros produtos de higiene mais procurados ainda não. De resto, as encomendas chegam com normalidade, excepto os legumes, que nem sempre vêm todos os que são encomendados.

 

“O país não pode parar”

Não tem havido mãos a medir e, com a loja de instrumentos musicais fechada, o marido e o filho dão uma ajuda. Reduzir o horário é uma possibilidade, mas não para já. “Temos tido sempre gente. Se as pessoas precisam de nós e nós precisamos delas, cá estamos. O país não pode parar”, acentua Cristina Conceição.

Manuela Venâncio aproveitou uns minutos para ir ao supermercado Mais Perto comprar o que havia para celebrar o aniversário do idoso de quem cuida. À falta de outras opções a uma hora já tardia, levou uma nata, um bolo de arroz e um palmier. As lojas de bairro, diz, não deixam os clientes “enrascados”.

Bruno Pereira, militar, acaba por recorrer agora mais ao comércio local, por estar menos exposto. “Tem menos gente e tem os mesmos produtos”, enfatiza. Na rua tenta não se encostar às superfícies. Quando chega a casa a prioridade é lavar e desinfectar as mãos.

Limite reduzido de clientes no interior

Na loja de Sandra Martins espera-se à porta se houver mais de três clientes no interior. As pessoas procuram manter-se afastadas. Quem não está tão consciente são as pessoas com mais idade, observa a comerciante. “Já ouvi uma senhora dizer que não é nenhum cão para ficar à porta. Nós tentamos explicar e alguns já entendem”, conta.

Cristina Conceição nota o mesmo padrão. São os seniores quem tem maior dificuldade em aceitar as medidas de distanciamento social impostas pelas circunstâncias do combate a uma ameaça invisível. Na Mercearia dos Penedos Altos já aconteceu pedir a alguém conhecido que não se importasse de sair para uma idosa poder fazer as comprar, porque estava com dificuldade em perceber a restrição de não ter mais gente na loja.

Sandra Martins tem também fabrico próprio de padaria e pastelaria e, se nas mercearias as vendas aumentaram, nomeadamente as vendas de pão, com praticamente toda a restauração fechada, como é o caso dos cafés, a pastelaria vende-se menos. “Eu fazia 40 guias todos os dias, agora estou a fazer 13”, compara. “Vende-se mais pão e menos bolos”, sintetiza Jorge Martins, o marido, na expectativa de dias menos sombrios.

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