Setembro foi um mês de eternidade

Os casos não aumentam exponencialmente até ao infinito
0
47

Canta por aí uma tradicional canção portuguesa que “setembro foi um mês de eternidade”. Creio que sim! Mais do que nunca, que este setembro, que há poucos dias findou, nos fez ver coisas inauditas, assistir a tudo e mais alguma coisa e foi-nos distraindo do essencial do momento que é a situação, para a qual fomos atirados, por causa da pandemia que se enfurece novamente.

Os regressos televisivos a tentarem distrair-nos com domingos preenchidos de festa e noites de “rentrées” que buscam audiências. O Avante e Fátima a concentrarem atenções e pessoas, numa época de distanciamentos sociais. No futebol as comissões de honra polémicas e os jogos cancelados projetam-nos para a indignação das nossas convicções. A criança abandonada à porta da igreja do Cacém, os arguidos do caso Lex e tantas outras fantasias, que desnecessárias são. E no meio disto tudo o número de casos de infeção por covid-19 e o número de mortos a fazerem crescer a “pandemia do medo”, que parece estender-se cada vez mais.

Creio que estamos perante a maior pandemia desta era pós moderna e nos assola um sentimento incontrolável por não sabermos ou podermos fazer nada, nós que já nos tínhamos habituado a “mandar” em tudo. Nós que, à maneira de Nietzche, declarámos a “morte de deus” e nos revestimos do “super-homem”, vemo-nos agora envolvidos no não saber fazer, no não poder fazer. Este monstro tenebroso que é o medo, numa escala sem precedentes, parece ganhar vida nas vidas dos que caminham até pelas praças, de olhar desconfiado e passo largo, em fuga do convívio social.

Contraditoriamente, parece que organizar eventos, promover acções culturais ou outras, surge como solução, para mostrar o quão seguros vivemos, o quão normal tudo se mantém e o susto é uma “invenção” dos menos destemidos.

Há uma certa pseudociência veiculada, por inúmeros pseudo-especialistas de tudo, que existem nestas redes, nos canais televisivos e até nalgumas páginas de jornal, que vão contribuindo ativamente para a situação em que todos nos encontramos hoje: o sem saber para onde vamos e como vamos.

A mesma pseudociência que indica caminhos, que orienta diretrizes, que propõe soluções eficazes, mas que não tem respostas para a situação financeira cada vez mais degradante e gritante, não aponta caminhos para como viver tanta dificuldade e nem abre portas às milhares de vidas em sufoco e desespero.

O medo está verdadeiramente no meio de nós: temos vindo a ser abalroados, em nossa casa, com imagens de caixões atrás de caixões, as notícias sobre a gravidade da doença em 4 ou 5 países aparece como espelho da escala mundial; a situação de Lisboa e Vale do Tejo, por ser capital, parece refletir-se na mente de todo o país, mas não se mostra a quantidade de UCI’s que estão às moscas ou quase, ou outras regiões do país, onde os casos ainda são raros, porque os cuidados têm sido redobrados ou bem geridos.

Em vez de entrevistas a epidemiologistas, microbiologistas e infeciologistas, colocou-se nas luzes da ribalta os matemáticos da economia que apresentam modelos numéricos apocalípticos, e visionários de um futuro de quem não tem sequer a noção de que as doenças infeciosas que se manifestam por surtos, apresentam um aumento rápido de casos, depois um planalto e por fim uma descida. Os casos não aumentam exponencialmente até ao infinito.

Precisamos de semeadores de esperança e não de quem nos distraia com conversas que nos levem, sub-repticiamente, a um pânico que não poderemos controlar. Venha o outono e nos ensine que a caducidade das folhas de cada árvore abre horizonte a uma nova primavera

Deixe um comentário

Mais Notícias