Santos ou perfeitos?

Quem nunca encara os seus erros ou pecados dificilmente conseguirá encontrar meios para os vencer
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O papa Francisco anunciou há poucos dias que Frei Bartolomeu dos Mártires, natural de Braga, se passará a chamar de “Santo”. Por cá, neste dia 17 de Julho, fizemos a memória de Francisco Alvares o “santo” da Covilhã, que poucos conhecem, talvez porque ainda só se lhe chame “beato”, que dá nome à rua que vai do quartel dos bombeiros até ao largo de Santa Marinha. E no meio de tudo isto fica-nos a dúvida sobre o que é a santidade.

O caminho da santidade é construído no quotidiano da vida, na qual se assume e vive a vida com todas as consequências da caminhada, os erros e os passos certos, as alegrias e as tristezas, as luzes e trevas.

Ser santo não é ser perfeito, mas vivemos hoje, um perigo dissimulado de desejarmos a perfeição, alcançada sem grande esforço e em “tempo record”. Confundimos facilmente essa perfeição com uma app virtual, que nos faz rejuvenescer ou envelhecer e nos retira os defeitos, numa espécie de “photshop da alma”.

O perigo está que quando se descobre e se assume que enquanto humanos não conseguiremos chegar à tal perfeição e podem surgir complexas crises de identidade, que degradam e conduzem à degradação da própria dignidade.

O caminho da santidade, da busca de uma perfeição pessoal, passa essencialmente pelos territórios humanos que nos compõem, porque quando se esquece a conciliação entre o espiritual e o humano está em causa o bem-estar integral da pessoa. Chamemos perfeição à santidade, mas não a enquadremos no ideário do agora.

O grande desafio está precisamente na certeza de que chegar à santidade só se consegue por meio das próprias imperfeições. O caminho da santidade começa a ser trilhado quando a vida se torna um lugar de reconstrução, em que o passado ensina o erro cometido, o presente é lugar para recomeçar e o futuro é morada da esperança.

Por isso é que o desejo de perfeição não pode passar senão pela aceitação da nossa humanidade e limitação. Muitos dos que querem ser perfeitos talvez ainda não tenham aprendido a ser humanos. E nós estamos talvez a educar para que cada criança ou jovem acorde, hoje, com o olhar no ideal perfeito de uma vida sem erros, uma vida que esquece o desafio da construção, porque tudo surge feito e as pedras do amadurecimento, que surgem no caminho, são desviadas por outros.

Muitos atribuem a Francisco a frase, que pode soar a clichê “Não há santo sem passado nem pecador sem futuro”. Seja como for, o caminho da santidade ou da perfeição é fazer de cada novo dia uma oportunidade de recomeçar. Quem nunca encara os seus erros ou pecados dificilmente conseguirá encontrar meios para os vencer. É mais fácil fazer uma make-up do erro do que olhar no espelho da alma e reconhecermos o seu verdadeiro rosto.

É mais fácil vivermos com um ideal de santidade do que nos esforçarmos para mudarmos atitudes que não contribuem em nada com nosso crescimento humano e cristão. Ser santo não é fácil, mas também não é impossível. Deus não nos quis robôs, fez-nos humanos chamados à perfeição.

 

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