Resistir hoje como há 100 anos

Há 102 anos, com a pneumónica ou gripe espanhola, a Covilhã foi o segundo concelho mais afectado do País, com uma taxa de mortalidade de 2,35 por cento
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Carlos Madaleno

Não é agradável relembrar tragédias mas fazê-lo pode ser útil para enfrentarmos os desafios com que hoje nos deparamos. A pandemia passou a ser o centro de todas as nossas atenções, encurralou-nos evidenciando a pequenez e efemeridade das nossas vidas. Foi também assim há 102 anos, com a pneumónica ou gripe espanhola, o maior e pior dos flagelos epidémicos da história da humanidade, até então. Foi trazida para Portugal, em finais de Maio, por trabalhadores que desempenhavam actividades profissionais sazonais em Badajoz e Olivença. Contrariamente ao que se passa hoje, o Alentejo foi a primeira região a ser afectada, verificando-se os primeiros casos em Vila Viçosa. A comunicação social, então restrita aos jornais, não lhe deu grande atenção, continuando a centrar o enfoque no fim da 1ª guerra mundial. Em Junho registaram-se os primeiros infectados na capital e no Porto. O jornal “O Algarve”, publicava no seu numero de 16 de Junho, um pequeno artigo onde se lia “A Direcção Geral de Saúde expediu um telegrama circular aos delegados de saúde dos distritos do continente para que verificando-se sinais da epidemia da gripe espanhola a avisem”. Entretanto multiplicaram-se os casos, sobretudo nos quartéis e entre as camadas mais jovens. Os sintomas em tudo semelhantes aos do covid19, tinham ainda a especificidade de conferirem uma cor azulada aos infectados, fruto das dificuldades respiratórias, e de provocarem hemorragias das mucosas que levavam os doentes a libertar sangue pelo nariz e ouvidos. Depois de um crescimento exponencial inicial, os casos começaram por diminuir no início de julho como se constata por alguns artigos publicados no suplemento humorístico da “Ilustração Portugueza”, “O Século Cómico”. Lia-se no nº de 1 de Julho: “ cá estivemos com a espanhola durante uns dias e não é tão má como pintam. No início uma pessoa é atacada pelo amor às castanholas e pandeiretas, depois sente-se neutral, tem dor de cabeça, pigarro, voa para a cama, tem febre, larga a cantar malagenas e peteneras – e daí a dias levanta-se fraquíssima, mas liberta da influência de Castela, a assobiar com entusiasmo o hino da restauração. Esta benignidade inicialmente apregoada, depressa se viu que não correspondia à realidade. Em Setembro a situação piorou, as infecções multiplicavam-se e as mortes também. O então director do Conselho Superior de Higiene e diretor geral da saúde, Ricardo Jorge, decretou a notificação de todos os casos, o isolamento de doentes e a interdição de deslocações, sobretudo das mais frequentes, as de natureza militar e agrícola. Estipularam-se valores limite para medicamentos e criaram-se comissões de ajuda aos doentes. No mês seguinte, em outubro, fecharam-se escolas, imobilizaram-se regimentos, suspenderam-se, mercados e romarias. Previdências que nos fazem refletir sobre as medidas hoje tomadas e a necessidade de as cumprir, tornando-as ainda mais rigorosas. A taxa de mortalidade foi de 962 pessoas por cada 10.000 habitantes. A Covilhã, não ficou incólume, antes pelo contrário, depois de Benavente onde a taxa de mortalidade chegou aos 7%, fomos o concelho mais afectado com uma mortalidade de 2,35% seguida de Leiria com 1,79% de mortes. Estes valores reportaram-se ao universo de habitantes e não ao de infetados, estimando que estes últimos correspondessem a cerca de 70% da população. No país morreram de acordo com os números oficiais 60.474 portugueses, devendo a realidade do número ser muito superior.

Na Covilhã, a Comissão Executiva Municipal criou em outubro desse ano a Comissão de Assistência aos Epidemiados, garantindo aos mais pobres alimentos e medicação gratuita. À semelhança do que se passava no resto do país, proibiu também o toque de finados para não alarmar mais os habitantes.

Foi um período duro, terrível que horrorizou mesmo os mais familiarizados com a fome e a pobreza, diga-se a grande maioria da população. Mas resistimos, tal como seremos capazes de resistir agora. Saibamos defender-nos para que possamos transmitir o conhecimento desta dura prova de vida às gerações vindouras.

1 comment

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    Rui F.L. Delgado 25 Março, 2020 at 18:00 Responder

    O meu pai contava, que nesta altura, ele nasceu em 1918, as mortes eram tantas que eram levados os corpos embrulhados num lençol e enterrados assim nas sepulturas, um pouco à pressa. Quase sem cerimónia nenhuma, ou mesmo inexistente. Temo esse período.

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