Que o Dia da Mulher não se repita!

“Enquanto estiver só e culturalmente presa às tarefas domésticas, faltará à mulher tempo para se empenhar civicamente na vida da sociedade”
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Vivo com este anseio. No entanto, a realidade apressa-se a indicar-me que ainda vai tardar: que as comemorações do Dia Internacional da Mulher deixem de se justificar.

A Constituição acautela a promoção da igualdade entre homens e mulheres, mas facilmente se percebe que da lei à realidade vai a distância de muita mentalidade que há ainda para mudar.

É um dia para lembrar direitos sociais, políticos, económicos, e são ainda muitas as desigualdades a que as mulheres são sujeitas. Tal como existem os defensores da Terra plana, persiste também a espécie negacionista das iniquidades que nos saltam à vista. Das mais evidentes aos obstáculos invisíveis a ultrapassar para se chegar ao mesmo lugar que os homens, com o desgaste que tal acarreta, mas nem precisam de lupa, basta olharem à volta.

Já lá vai o tempo da mulher educada para ser submissa, para servir o marido e não ter voz. Afastámo-nos da ideia da mulher ideal estar associada à mulher arredada do espaço público, sem acesso a certas profissões, com direitos restringidos, desincentivadas a estudar. A mulher já não precisa da autorização do marido para trabalhar, para sair do país. Há mais de 40 anos que passou a ter direitos de decisão parentais e pode votar.

As mulheres são mais de metade da população, estão em maioria nas universidades, têm maiores níveis de escolaridade, mas ganham menos, têm empregos mais precários, são a maioria a ganhar o salário mínimo e são poucas as que conseguem aceder a cargos de chefia.

Os salários são mais baixos 16%. Comparativamente, é como se só começassem a ser pagas em Março. Uma desigualdade que se prolonga ao longo da vida. Estão em maior risco de pobreza e têm pensões mais baixas. É porque são incompetentes? É porque na execução das tarefas domésticas suportam mais do triplo de trabalho que o companheiro. Ocupam nos dias úteis 3h48 em tarefas domésticas ou de cuidadoras, trabalho não remunerado que os homens ainda não se habituaram a partilhar. “Ah, mas eu ajudo/ele ajuda”. Lá vem a semântica reforçar uma educação enraizada pouco paritária e até inconsciente das responsabilidades.

Um estudo de 2019 da Fundação Manuel dos Santos diz-nos que, a este ritmo, Portugal vai precisar de cinco gerações para que homens e mulheres partilhem igualmente as tarefas domésticas nos casos em que ambos têm trabalho pago.

Que tipo de homem se pode sentir confortável ao permitir que a companheira lave, passe, limpe o pó, trate dos filhos, quando se um fizer umas coisas e outro outras, de forma equilibrada, ambos terão mais tempo livre?

Enquanto estiver culturalmente presa às tarefas domésticas, faltará à mulher tempo para se empenhar civicamente na vida da sociedade, será sempre com maior esforço que dará o seu contributo para a vida colectiva.

O Dia da Mulher continua a ser necessário, para nos obrigar a reflectir sobre as desigualdades e caminhar para que a lei e a realidade coincidam. Não é um assunto de mulheres ou homens. É um problema para todos resolvermos, uma questão de evolução civilizacional.

Permitir que o 8 de Março seja reduzido à mera exploração comercial é um desrespeito por quem morreu ou foi preso para que tivéssemos chegado até aqui. Saúdo as iniciativas que exigem maior dignidade das mulheres no mercado de trabalho, tal como enalteço as acções que pretendem dar visibilidade às mulheres que se destacam na esfera pública e possam servir como modelos de identificação.

É necessário o homem aumentar o seu empenho em casa e a mulher fora dela. Democratizar as relações sociais. Que importam as flores, se não fazemos por rejeitar papéis, à partida, atribuídos a cada um dos géneros, que conduzem aos estereótipos e ao preconceito. Flores sim, mas com direitos e igualdade de oportunidades. Que os cromossomas com que se nasce jamais definam o que podemos ou queremos fazer.

 

Jornalista

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