Quando o Interior é ainda longe

As nossas aldeias não têm uma rede que lhes permita o fácil acesso e comunicação para com as suas sedes de concelho
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Há uns anos atrás, um dos meus alunos relatava-me a sua rotina matinal, que se iniciava pelas 6h00 da manhã. Algo impensável para mim, seu professor, porque vivia neste mesmo concelho, numa aldeia a cerca de 40 quilómetros da escola onde as aulas se iniciavam às 8h30.

Contava-me o jovem estudante de 15 anos que tinha de acordar a essa hora porque o autocarro passava às 6h30 e depois ficava ali pelo Ourondo, desde as 6h45 até às 7h30, hora em que passava novo autocarro com direcção à Covilhã, porque o primeiro dirigia-se para o Fundão.

Na irreverência dos eus 15 anos, lá falava do frio do Inverno e de como era combatido por uns “bagaços” que bebiam numa pequena tasca que estava junto à paragem dos autocarros e onde se abrigavam até que chegasse o seu transporte.

Há cerca de 15 anos, quando isto me foi contado, achei de uma estranheza atroz e de uma falta de cuidado inauditos. Primeiro, porque criança alguma merece ter de acordar tão cedo para ter oito horas de aulas, regressando a sua casa cerca de dez horas depois. E em segundo, porque a falta de vigilância dos pais introduzia-os cada vez mais cedo na prática do álcool e de outras substâncias, bem o sabemos.

Mas, para além disso, para além de todas as crianças e jovens que passam por esta aventura, há também toda uma população dos limites dos concelhos, que experimentam o mesmo drama de não poderem chegar a bens e serviços que lhe são devidos e constituem um direito básico, como seja o dos direitos à saúde ou aos serviços do Estado.

E passados tantos anos, com a pavimentação de tantas estradas, com tantas campanhas de revalorização do Interior e das suas aldeias, o drama parece manter-se.

Esta semana assistimos a uma “revolta” da população e São Jorge da Beira pela retirada de transportes. Mas sabemos que o drama vai além das Minas da Panasqueira. As nossas aldeias não têm uma rede que lhes permita o fácil acesso e comunicação para com as suas sedes de concelho, onde encontram as reais necessidades para o desenvolvimento da vida do quotidiano.

O táxi continua a ser solução para muitos doentes e idosos, que ao terem de o usar perdem grande parte do seu orçamento mensal, que por certo fará falta na farmácia ou na mercearia.

Valorizamos as aldeias e fazemos delas um rico panorama cultural e paisagístico para atrair turistas e desenvolver economias, mas não investimos nas pessoas que lá habitam. Lutamos contra a desertificação, buscamos formas de fixação das camadas jovens, mas não lhes criamos sequer acessibilidades para que o possam fazer.

É o Interior no seu melhor. É a incongruência de não sabermos o que realmente queremos: mais Interior ou um Interior tão puro que nem lhe “mexemos” e deixamo-lo ficar como sempre esteve?

Importa valorizar as populações que por si só já sofrem o peso do isolamento e as longas noites de Inverno, onde as ruas vazias chegam a ser cenário de crónicas sinistras. É tempo de as valorizarmos e lhes mostrarmos a admiração por elas que lutam contra toda a esperança para subsistirem no mundo mecanizado que fomos criando. As suas relações, a sua fé, os seus hábitos, a sua etnografia e cultura são a raiz de um Portugal profundo, de um Portugal autêntico.

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