Portugal: metade está em festa, a outra metade também

Será este o tempo oportuno para nos repensarmos e percebermos quem verdadeiramente somos
0
1695

O mês de Agosto, já se sabe, faz com que metade de Portugal entre num ambiente de festa único. Os “santos” dão o mote para os tradicionais arraiais de Verão, que juntam famílias e exaltam o regresso anual dos emigrantes, que promovem as aldeias e as suas tradições, que abrem portas para novos ritmos da festa e a prolongam até que o sol faça raiar a nostalgia de Setembro.

O S. Romão de Verdelhos ou a Senhora de Lourdes da Atalaia, a Senhora do Carmo do Teixoso ou São Bartolomeu dos Três Povos, todos e tudo dão mote a que a nossa beira, e Portugal, estejam em festa.

A gratidão de quem recorre à proteção divina, em tantos momentos dolorosos pelos quais o ano faz passar, traduz-se em “promessas por pagar”, feitas de velas e flores, de pés descalços e ofertas, porque em Portugal a fé tem destas expressões que a Europa já não conhece. Os dias da festa na aldeia, eram também oportunidade de um reencontro com o espiritual. Fosse na confissão ou na novena, nas palavras de um sacerdote ou no simples contemplar da imagem do padroeiro, “porque o nosso é o mais bonito”, a dimensão espiritual cultivava-se. O abraço, o reencontro, o convívio saudável de quem se sente protegido no “seu território” manifestavam essa mesma espiritualidade, feita de solidariedade e comunhão, ímpares.

As festas dos santos, porém, correm hoje o perigo de se tornarem as “festas de Verão” e nelas desaparecer o que de melhor se lhes conhecia. Talvez a figura do santo não seja mais do que uma “desculpa” para haver festa; o palco já não precisa de ser montado, porque o camião poupa os esforços, que hoje são desnecessários; o rancho e a concertina vão sendo substituídos pelo DJ, porque “a malta gosta mais”; e assim se muda o cenário do País em festa.

Mas se esta metade do País assim se expressa nos pequenos lugares e aldeias, a outra metade, à escala nacional, está numa azáfama, preparando as rentrées políticas que se adivinham calorosas, porque Outubro já lá vem.

Neste caso as bandeirinhas que enfeitam a festa são os grandes temas nacionais. E em boa linguagem portuguesa serão elas: as geringonças estropiadas, os falhanços do Governo, os incêndios que voltaram, o País insatisfeito bem notado na greve dos trabalhadores dos transportes de matérias perigosas.

O País pode parar, mas a festa não! A troca de acusações, a inflexibilidade dos que defendem causas, os “andores” de culpabilização e os estandartes de inércia política compõem assim toda uma procissão que nos conduz a um Portugal cada vez mais impreparado para se sustentar a si próprio.

Será este o tempo oportuno para nos repensarmos e percebermos quem verdadeiramente somos e sob que identidade nos apresentamos. O “País de brandos costumes” a que nos habituámos precisa de se revisitar a si mesmo e impor ritmo “à festa que aqui vai”, sob pena de não ir mais além do que um toque desafinado de uma concertina estatal que comanda o baile dos que ainda têm força para dançar.

Será caso para invocar: “Valha-nos a Santa Paciência!”

Deixe um comentário