Portas fechadas

Este é o tempo de pararmos diante do frenesim em que ia a nossa vida
0
222

Esta é a nossa primeira edição online. Diante dos acontecimentos optámos por estar perto, por esta via digital, mesmo sabendo que não somos “prós” nesta matéria. Mas, ainda assim, não nos quisemos distanciar dos nossos leitores, pelo contrário, tentamos actualizar a nossa informação de proximidade com que se pode saber e descobrir nesta zona do Interior, nestas cidades paradas, neste tempo em que nada acontece mas tudo está a mudar.

Como jornal de inspiração cristã, não poderíamos fazer de outra forma: estar presentes, mesmo que não o podendo fazer da forma tradicional. Porque este é o tempo de ficar em casa para cuidar dos outros. Que paradoxo?!

Este mesmo paradoxo acontece com a Igreja. Tem, nos últimos tempos usado um discurso de apelo ao bem comunitário, sempre prega o amor ao próximo como o mandamento maior, fala de encontro entre as pessoas, condena o individualismo e materialismo e agora… E agora ela mesma tem de estar de portas fechadas, tem de suprimir as suas celebrações, tem de se isolar.

Algumas vozes mais conservadoras têm-se manifestado contra o facto da Conferência Episcopal ter ditado normas de suspensão das actividades comunitárias e da própria eucaristia. Todos sabemos que a Igreja não vive sem a eucaristia. Mas ela não termina! O que está em causa é precisamente o amor ao próximo e o respeito pelo bem comum, princípio da doutrina social da mesma Igreja, que para os fundamentalistas, às vezes parece não ter qualquer valor.

O bem comum é não fazer da casa da igreja um lugar de proliferação de um vírus que nos está a afectar tudo e a todos. Bem comum é pregar e cumprir que a melhor forma de contribuir para que todos se salvem é prescindir de uma “identidade eucarística” para um grande grupo e aceitar que o sacerdote, que a celebra sozinho, coloca a todos em cima do altar.

Esta é também uma lição para a comunidade dos crentes, para que entendam que a medida do amor ao próximo exige tanto sacrifício como o ter que prescindir daquilo que nos apetece e de que tanto gostamos. É a lição que mostra que os nossos actos de culto são mais pequenos do que o cuidado para com o outro, é a lição de um evangelho que nos faz sentir a nossa pequenez, a nós que pensávamos ter o mundo nas mãos.

E é certo que também nestas horas nos perguntamos sobre o “silêncio de Deus” perante esta pandemia. Porque é que Deus permite? É um castigo? Será a hora de decretarmos a vitória de Nietzche e declararmos a “morte de Deus”? Não!

O que mais uma vez surge aos olhos da humanidade é o mistério, que exige a fé. O mistério que nos faz crer num Deus que chora e sofre com e pela humanidade, que Ele mesmo quis experimentar. Mistério que nos permite perceber que “há um tempo para tudo” e este é o tempo de parar e reparar o que somos, para onde vamos e como o estamos a fazer.

Este é o tempo de pararmos diante do frenesim em que ia a nossa vida. De sentirmos os sons da natureza esquecidos, dos aromas e perfumes da infância, do reatar das relações e da redescoberta familiar. É o tempo dos crentes perceberem que Deus está mais no próximo do que nas paredes de qualquer templo e simultaneamente como nos faz falta esse templo para aprendermos esta realidade

E sim, Deus continua a falar e a gritar: a falar na acção médica e das autoridades civis, dos investigadores e dos muitos voluntários que colaboram com os que sofrem, nas muitas mulheres encerradas em lares, nas muitas mães e pais que se redobram em cuidados, nos muitos filhos que “reeducam” os idosos; e o pior é que Deus grita na dor e no sofrimento de tantos infectados e tantas famílias em luto.

Choramos com Deus! Em breve com ele cantaremos um hino de vitória!

Pelo seu e bem comum: Fique em Casa!

Deixe um comentário