Por um concelho mais justo

O trabalho que se faz deve ser pago: se não é pago, estamos a tratar as pessoas como escravos
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O senhor “M” tinha 40 anos e trabalhava numa empresa do concelho. Preferiu não me dizer qual e depois percebi porquê. Era um homem magro, com um tremor das mãos que inicialmente pensei ser o problema, mas que não o incomodava. O pior de tudo era não conseguir dormir e parecia que cada vez era pior, não conseguia dormir, e depois preocupava-se por não dormir e depois não dormia ainda mais… O ciclo vicioso do costume.

As alterações de sono são problemas difíceis de resolver sem medicação, mas a medicação tem muitas contra-indicações e tentamos sempre dar o menos possível, o menos tempo possível. Daí precisarmos de fazer muitas perguntas para perceber melhor que tipo de alteração temos- há um mundo de coisas para além das insónias… – e o que as provoca.

“ -Mas zangou-se com alguém? Há alguém doente em casa? Os seus filhos estão bem? Os seus pais estão bem? Há problemas com a esposa?” Não, estava tudo bem, o senhor parecia ser a pessoa mais feliz do mundo, os filhos eram fantásticos, a esposa também… O processo de insónia que referia era característico de problemas de sono associados a uma depressão, e o senhor parecia triste, e lento e em baixo… Fiz o exame neurológico, estava bem, expliquei o tratamento não medicamentoso dos problemas de sono e comecei a discutir a hipótese de acrescentar um medicamento. Passei a receita. Escrevi ao colega médico de família. Estava quase a despedir-me do senhor quando ele se virou e me disse: “Como se resolve uma injustiça?” Foi bastante inesperado e fiquei assim a olhar para ele, que me explicou: trabalhava muito, trabalhava bem (o senhor era bastante perfeccionista, sem querer arrumou direitinho todos os papéis da minha secretária, por isso acredito que fizesse um bom trabalho todos os dias.) Ganhava o ordenado mínimo, que recebia. Mas trabalhava muito mais em horas extraordinárias. Na época de Natal e Ano Novo tinha sido um corrupio, e ele teve de fazer muito mais, muito mais tempo. O patrão nem referiu as horas, e um colega que falou nisso foi convidado a despedir-se. Aquilo estava a fazer-lhe mal, porque era uma injustiça. Se as pessoas trabalham, deviam receber, não era? Falei em sindicatos- não estava sindicalizado, mas se se inscrevesse não ia durar muito no emprego e tinha família. Falei em denúncia ao Tribunal do Trabalho – ele só disse que precisava do emprego. Deixei-o desabafar – era o que precisava no momento – mas fiquei a pensar que me apetecia partir umas coisas.

O trabalho que se faz deve ser pago: se não é pago, estamos a tratar as pessoas como escravos. E a escravatura, em que se reduz o outro a um número e a um mero objecto para ganhar dinheiro, tem muitas formas, mas está na base de um processo economicista que atravessa a direita e a esquerda. Basta olhar para uma semana inteira de Orçamento do Estado e para os discursos de quem tem responsabilidades.

Num concelho desenvolvido, em que quem nos governa se preocupe em chamar varias empresas e em criar postos de trabalho, a possibilidade de escolha existe, e alguns patrões que seguem estes processos injustos não conseguiriam arranjar empregados. Num concelho desenvolvido, com inspecções do trabalho reais e eficazes, estas situações não ocorriam. Num concelho com um nível de formação alto, em que se produzam técnicos com alto valor, as pessoas não têm de se sujeitar a estas situações e saem ou criam os seus próprios empregos.

Não é, pelos vistos, o concelho que temos. E está na hora de pensarmos todos que tipo de justiça social é que temos neste concelho, quem está de facto a proteger os mais fracos e o que podemos fazer para que isto deixe de acontecer. Mesmo que sejamos nós a ficar sem sono por isso.

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