Os padres de hoje

Nós, sacerdotes, precisamos da oração e da compreensão da comunidade que nos acompanha
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Por tradição da Igreja, o mês de Junho está associado a um dia de oração pelos sacerdotes, marcado para o dia 28, dia em que se celebra o Coração de Jesus, que todos os sacerdotes devem imitar. Porque, na verdade, o coração de Cristo constitui o modelo de coração de um padre, que se entrega, por amor, pela causa de mundo melhor.

Os nossos tempos têm desvelado muitos “pecados da Igreja” e todos sabemos da fragilidade do sacerdote homem: a sua humanidade já realçada pelo próprio Jesus, quando disse “estão no mundo mas não são do mundo” (Jo 17), é condição básica. O padre nunca deixa de ser homem, mas é chamado a superar a sua humanidade, para dar lugar à imagem, de Jesus que em tudo foi “igual a nós excepto no pecado”.

Necessariamente esta situação aponta-nos para as questões morais que circundam a vida dos que se entregam à causa do Evangelho. As notícias sobre maus exemplos e situações que provocam a desconfiança dos cristãos e da sociedade em geral sobre a figura do sacerdote são um dado. Muitos dos que se consagraram ao reino, marcados pela fragilidade humana, deixaram-se contagiar pelo tal “mundanismo espiritual” para o qual tanto tem alertado o Papa Francisco. E, neste mundanismo, o desejo de posse, o relativismo, o desencanto e desânimo diante da missão podem ser factores para que isso aconteça. Nada justifica erros e pecados que nos envergonham…

Por outro lado, esta situação faz apagar a generosidade de tantos homens que se consagram e entregam a sua vida a grandes causas, anónimas, discretas, livres e de grande radicalidade. “Deixar pai e mãe”, “pegar no arado e não olhar para traz” ou “ser pescador de homens” são desafios suficientemente exigentes para um frágil homem, que se reveste não somente de altruísmo, mas de uma forma de amor ímpar e gratuita pelo Evangelho de Jesus.

É nessa dimensão que D. Manuel, Bispo da Guarda, numa carta, do passado dia 10 de Junho e dirigida aos sacerdotes manifesta a sua preocupação com a situação actual da Diocese da Guarda. Lembrando que “as nossas formas de vivência comunitária e os nossos serviços têm de renovar-se para responder às novas realidades do mundo e da Igreja”, D. Manuel, aproveitando o momento da ordenação de um novo padre relembra aos que o já são aquilo que deles se espera.

Preocupado com a renovação da Diocese, o Bispo da Guarda traça “os pontos essências da vida de sacerdotes ao serviço da Igreja”, e reafirma que o padre de hoje é; “o que preside à Eucaristia que deve cuidar bem”; “o homem visivelmente preocupado em rezar por si e pela comunidade”; “o homem da reconciliação e do acompanhamento, da Palavra e que preside à Comunidade”.

Nós, sacerdotes, precisamos da oração e da compreensão da comunidade que nos acompanha. Talvez no diálogo livre e descomprometido com a comunidade, na quebra de tabús e preconceitos, na conversa simples sem moralismos e julgamentos, a comunidade consiga compreender melhor o padre de hoje, a sua fragilidade e a sua força, o seu celibato e a sua entrega, a sua capacidade de se renovar enquanto ajuda a renovar a Igreja.

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