Os olhos na ponta dos dedos

Ana José Carrolo, professora de piano, cega, é mais uma das docentes que passou a dar aulas à distância desde que a pandemia obrigou a suspender as lições presenciais
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Inesperadamente, o ensino à distância tornou-se uma realidade quase de um dia para o outro. Uma necessidade ditada pelo novo coronavírus, a que alunos e professores recorreram sem tempo para processarem a ideia. Ana José Carrolo, professora de piano, cega desde a nascença, também se adaptou à nova realidade e há mais de dois meses que as aulas passaram a ser dadas a partir de casa.

Ana José Carrolo, 35 anos, passou a monopolizar a sala da família, agora o espaço de trabalho a tempo inteiro, onde está instalado o piano de cauda, com as partituras em braille na estante e vários volumes com peças em cadernos num banco ao lado.

A professora de ensino artístico no Conservatório Regional de Música da Covilhã, onde lecciona há 11 anos, passa com destreza os dedos pela linha braile, o periférico que faz a leitura do ecrã, utilizando um sintetizador de voz. Vai ouvindo os nomes que procura na lista de contactos até encontrar o nome da aluna a quem vai dar a próxima aula. “A abrir a conversa”, avisa o portátil, através da ferramenta de leitura. Não tarda a aparecer a estudante de 14 anos, a frequentar o nono ano escolar e o quinto grau de piano.

“Olá, professora”, cumprimenta. “Olá. Começamos com Beethoven, pode ser já a parte C”, responde Ana José, sem deixar perceber que este é apenas o novo normal e até há pouco uma possibilidade longe das suas cogitações.

Com as costas irrepreensivelmente direitas, a professora passa os dedos com leveza e agilidade pelo teclado e faz soar as primeiras notas. Depois vira-se para a direita, onde uma mesa de apoio improvisada, com uma caixa por baixo do computador portátil para o manter com o ângulo certo, permite à aluna ver o dedilhado e repetir o que viu e ouviu.

“Podes tentar ajustar o som? Está muito baixo. Faz com o dó”, pede Ana José Carrolo. Enquanto a aluna replica o que lhe chegou por videoconferência, a professora vira-se para o monitor, percute os dedos nas pernas, como se fosse um teclado, bate o pé a acompanhar o ritmo e manda parar quando quer corrigir.

“São semicolcheias na mesma. Faz com a direita”, continua a professora, que agora segue os acordes com os dedos sobre as teclas, como se estivesse a tocar, mas sem as premir. Faz soar o seu piano apenas quando há uma falha ou sente as notas da aluna saírem mais hesitantes. Ora está virada para o piano negro de cauda, ora para o monitor do computador, com ar compenetrado. Quando o som soa do outro lado como pretendido, esboça um sorriso e descontrai o semblante. “Falta-te o tempo do dó”, “Não deixes arrastar”. As indicações sucedem-se. A aluna repete e melhora o desempenho.

“Não é a mesma coisa”

Quando as aulas presenciais foras suspensas, devido à pandemia da covid-19, a professora de piano, natural do Fundão e a residir na Covilhã, manteve os primeiros contactos através de email e telefone nos primeiros dias, até ter o computador preparado para as aulas à distância, a agenda ordenada e os programas necessários instalados.

No início ficou apreensiva. Pensava como seria. Se seria exequível. Confidencia que ser cega talvez lhe tenha provocado maior ansiedade. Receios que se vieram a mostrar infundados. Depois da adaptação dos primeiros dias, tanto às plataformas digitais, como à reorganização da sua vida e até da disposição da sala, a adesão à nova forma de ensino “foi rápida” e surpreende-se por estar a correr tão bem, embora acentue nada substituir as aulas presenciais quando se aprende um instrumento.

“Não é a mesma coisa, porque uma lição de instrumento é muito física, envolve o corpo todo. No piano tenho de controlar sempre a mão, o pulso, o braço, os pés no chão”, sublinha. Sente ter a vantagem de já estar adaptada aos alunos e eles à professora. Se não estivéssemos no terceiro período, talvez fosse mais complicado. Agora, de ouvido, consegue alertar também para as posturas. “Pelo som que se produz, consegue-se saber se as coisas estão correctas. Já há uma ligação anterior, os alunos colaboram e a adaptação não foi difícil”, conta.

Com recurso a uma linha braille e a ferramentas de leitura de ecrã, a pianista do Conservatório da Covilhã passou a dar aulas por videochamada.

“A música ajuda a preencher vazios”

Há aspectos que se tornam mais desgastantes. “Coisas que presencialmente se explicam em segundos, à distância demora mais tempo”, exemplifica.

Do outro lado do ecrã, através do Skype, mas que poderia ser o Teams, tem notado entusiasmo e força de vontade. “É importante manter o vínculo com os alunos, porque na música é preciso muita prática. Não estava à espera que houvesse tanta motivação e isso também me motiva a mim. As dificuldades que surgem são técnicas, ou o som, ou a chamada que cai. Não tem que ver com o empenho dos alunos”, frisa.

O importante, para a professora, é procurar consolidar conhecimentos, estimular a prática, para que não se regrida. “O que temos de fazer é consolidar os conhecimentos e manter a motivação dos alunos. Quando há bastante trabalho, é possível haver evolução”, realça Ana José Carrolo, que tem reparado em alguns alunos, dos nove aos 17 anos, um estreitamento da relação com a música.

“A pandemia fez muitos alunos descobrirem uma importância diferente da música na sua vida, porque a música ajuda a preencher vazios, a lidar com os dias bons e os menos bons”, enfatiza.

“Tenho de ter tudo na memória”

Por ser cega, Ana José está habituada a decorar as obras, para não estar a ler a partitura enquanto toca ou ensina. As manhãs são normalmente destinadas a preparar as aulas. A tarde inteiramente dedicada à componente prática, agora através do rectângulo no monitor.

“A diferença de um professor de música cego é que tudo tem de estar na memória, para não perder tempo a olhar a partitura. Eu não posso tocar a ler, tenho de ter tudo na memória”, explica.

Todos os dias prepara as obras a tocar, um repertório erudito, que passa por Beethoven, Bach, Mozart, Schubert ou Chopin. Em função do nível do aluno, escolhe a parte que vai ser tocada, revê e decora esses trechos, pensa que aspectos têm de ser tidos em conta durante a aula. É uma organização como acontece no resto do ano.

No caso dos mais novos, insiste na forma como têm de levantar a mão, como posicionar o corpo, como manter a postura. Nos mais velhos está mais atenta às sonoridades. “É importante entenderem a estrutura da obra, terem atenção à maneira como a interpretam, ajudá-los a perceber o que estão a tocar. Já não são só as notas, é o tipo de som que têm de tirar, tecnicamente que dedilhações se usam em determinadas passagens mais difíceis”, pormenoriza. A experiência de quem toca piano todos os dias desde os sete anos permite-lhe saber o que está a falhar quando o som não é o esperado e dar dicas sobre como melhorar.

Já se convenceu que, embora nada substitua o ensino presencial, é esta a realidade actual, a que está adaptada e que vai necessariamente ter de ser ajustada.

Os critérios de avaliação vão ser diferentes. Não estão previstas as habituais audições no final do ano lectivo, “mas não penso muito nisso”, acentua. Tenta trabalhar com o mesmo nível de exigência. “Quanto mais evoluírem, melhor. A meta é sempre alta”, assegura. A avaliação dos alunos vai ser contínua, em função “das competências que mostrarem em aula e da atitude”, detalha.

Ana José Carrolo diz que ensinar à distância “não é a mesma coisa, porque uma lição de instrumento é muito física, envolve o corpo todo”.

“Não é o melhor método de ensino, mas está a correr bem”

Estes têm sido dias atípicos, que se foram normalizando e a que se foi habituando. Até o filho. A curiosidade dos quatro anos fâ-lo ir espreitar à sala, às vezes quer brincar e quer experimentar o piano. Ana José explicou-lhe que dentro do horário das aulas, que terminam só ao final da tarde, tem de brincar em outra divisão da casa.

Embora as tecnologias facilitem, não há nenhuma aplicação ou programa que substitua a presença física. O confinamento e a suspensão das aulas “foi um mal necessário, para segurança de todos”. Nos últimos dias na escola, lembra, o ambiente já era de temor, com a necessidade constante de desinfecção e a ansiedade que passou a gerar.

A professora de piano já tem saudades de estar com os alunos e iniciou, na semana passada, um desconfinamento parcial, para dar aulas a uma estudante do ensino secundário, em final de ciclo, que se prepara para a prova de aptidão artística.

Os últimos dois meses e meio têm sido um admirável mundo novo, qual livro de ficção que a pandemia tornou real e obrigou a aguçar o engenho, a agilizar processos, a descobrir novas possibilidades.

“Não vou dizer que foi fácil. Não estava preparada para, de um dia para o outro, passar a dar aulas à distância. As tecnologias já nos deixam fazer algumas coisas, mas é preciso treino”, vinca.

Com uma incógnita no caminho para o futuro próximo, tem a certeza de que esta não é a melhor solução, mas é a possível, e tem resultado melhor do que podia imaginar.

“Não é o melhor método de ensino, mas está a correr bem, com a colaboração de todos”, ressalva, sentada de frente para a parede onde uma pintura da Praça do Município do Fundão se destaca, mas que, devido à cegueira congénita, nunca conseguiu ver.

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