Os nossos centenários

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Tal como o Notícias da Covilhã, são centenários. Nasceram no Portugal do pé descalço, da fome, no país em que poucos iam à escola, em que a maioria da população era analfabeta, em que a informação era passada de boca em boca e tardava a chegar, em que a maioria dos que liam o jornal eram privilegiados. 

Quais são as recordações mais marcantes que guardam? Como vivem? Em que pensam os nossos centenários? O NC falou com Emília Teles, com Francisco Oliveira e com Alexandre Augusto, parte das 4.268 pessoas com mais de cem anos que em 2017 residiam em Portugal, segundo os últimos dados disponibilizados pelo Instituto Nacional de Estatística (INE). Desse grupo, a maioria são mulheres, 2600, e estavam contabilizados 1668 homens. A região centro é a zona do país onde está concentrada a maioria dos centenários. 

Emília Teles, 105 anos

“Agora nem as côdeas comemos”

Emília Teles tem 105 anos. Nasceu na Covilhã, onde é hoje a Rua da Saudade, e não teve oportunidade “nem de pôr o pé na escola”. Da infância recorda-se das brincadeiras na rua, que eram fazer de conta que cozinhava bolos e sopas com a terra molhada. Aos dez anos já andava “a fazer tudo o que aparecia”. Fosse a transportar os cortes de fazenda à cabeça até às fábricas, a levar os almoços a operários, a esfregar o chão da casa de algum industrial ou a servir nas residências onde as criadas se multiplicavam. 

“Ai, trabalhei tanto! Trabalhei muito, a servir onde era preciso. Agora não faço nada, já viu?”, desabafa Emília, sentada numa cadeira no Lar da Mutualista, provocando um sorriso na filha, que a visita todos os dias. 

A primeira vez que calçou uns sapatos, foi quando fez a primeira comunhão, mas teve de os devolver, porque eram emprestados, tal como o vestido. Já foi muito mais tarde que teve acesso à primeira telefonia, onde gostava de ouvir Amália, Fernando Farinha e o terço.

Ao comparar épocas, apressa-se a dizer que “hoje há mais paródia, antes era trabalho, trabalho, trabalho”. “Agora nem as côdeas comemos”, acrescenta, sentada no sofá da luminosa sala onde desde há seis anos passa grande parte do tempo, embora lamente a vontade própria das pernas, que deixaram de lhe obedecer. 

Questionada sobre o que ainda gostava de fazer, não hesita: de estar em casa, a lavar a loiça, o chão, como toda a vida fez, até aos 90 anos, quando um tumor lhe alterou o quotidiano.

Mica tem pena de não ter aprendido a ler, embora recebesse o NC em casa, companhia habitual do marido. A centenária, que durante décadas morou próxima do jornal, aproveita para lembrar as casas velhas deitadas abaixo, para construir o edifício onde funcionaria o jornal.

Alexandre Augusto, 103 anos

A vida de hoje “não se pode comparar”

Aos 103 anos Alexandre Augusto não se apoia na bengala que o acompanha. Coxeia um pouco, mas o passo é ligeiro, tal como o discurso é fluido e eloquente. A memória também não dá mostras de o atraiçoar.

Enquanto põe ao lume a panela com as batatas e o bacalhau, ao lado da bancada onde tem os medicamentos alinhados, conta já ter passado boa parte da manhã no café, onde costuma ir beber o chá, e bem cedo foi apanhar cereja. “Tive de andar a escolher, ainda não estão em condições”, frisa. 

Nascido e criado no Dominguizo, foi à escola porque se punha a espreitar à janela. “O meu pai não tinha dinheiro para comprar o livro da primeira classe, o professor emprestou-me o do filho e fui estudar”, recorda. A mãe ficou viúva, com quatro filhos para criar. Quando as necessidades sobravam e a comida faltava, as crianças iam “à casa do morgado”, pedir à criada “para dar um pouco de pão”.

Já mais velho foi “aos farrapos”, saco às costas, descalço, de terra em terra, a recolher ferro velho. Chegou a ter um tear manual, até se tornar “feitor agrícola”. Até se reformar ainda passou 14 anos em França, na construção civil.

A vida de hoje “não se pode comparar” e também não gosta de pensar no passado. “O passado passou”, repete. O futuro também não o inquieta. Não faz planos a prazo. A mente é ocupada com as tarefas do dia-a-dia. As muitas idas ao Café Sandrana, onde “lê as gordas” dos jornais, também do NC, conversa com os restantes clientes, as visitas ao lar onde se encontra a esposa, o estado de maturação das cerejas e a necessidade de pedir à filha para o levar à quinta, porque já não se atreve a pôr-se sozinho ao caminho.

Francisco Oliveira, 101 anos

“Se pudesse, ia trabalhar, porque é o que eu sei fazer”

Os anos passaram, mas os tempos de grande privação são o que mais está vincado na memória de Francisco Oliveira, 101 anos, bengala sempre a girar entre os dedos. “Passei muita fome. Dias sem comer e comia-se o que aparecia”, sublinha, uma e outra vez. 

Nasceu perto da igreja de São Francisco, num tempo em que não havia o que comer, nem o que vestir e quando se tomava banho era nas idas ao rio, “todos carrapatos”. 

Não ter ido à escola, embora fosse o habitual à época, magoa-o, tanto como as sacas de cem quilos de adubo que carregava todos os dias para os vagões dos comboios, nas costas doridas. “Trabalhava-se muito e não se ganhava quase nada”, comenta, ressentido com a vida de tantos como ele. “A vida era dura, muito dura, e de que maneira”, insiste, ao mesmo tempo que os olhos começam a lacrimejar por trás dos óculos de massa grossa. 

Perdeu dois filhos quando eram pequenos. Resta uma, mais os netos e bisnetos. No Lar da Misericórdia, onde cada funcionário que passa interage com Francisco e ensaia brincadeiras, gosta de apanhar sol na varanda, da comida à hora certa, da forma como é tratado, mas considera já ter vivido o suficiente. 

“Peço a Deus que a morte me venha buscar. Já estou farto de viver, de andar no mundo”, responde Francisco, sobre quais são os seus interesses e pensamentos. O que gostava ainda de fazer? “Se pudesse, ia trabalhar, porque é o que eu sei fazer”, enfatiza. 

Ana Ribeiro Rodrigues

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