Os dois papas

O gesto de Francisco mostrou a vulnerabilidade daqueles que foram “escolhidos entre os fracos”
0
465

Por estes dias a Netflix apresentou um dos mais comentados e esperados filmes sobre os dois papas do momento, que marcam o ritmo da história da igreja e do mundo. A obra do realizador Fernando Meirelles, faz uma analepse à eleição de Francisco, baseada numa “suposta” conversa entre o então Papa Bento XVI e o cardeal argentino Jorge Mário Bergoglio.

O elenco, brilhantemente interpretado por Anthony Hopkins no papel de Ratzinger e Jonathan Pryce a encenar a figura de Francisco, transportam-nos para os finais de 2012, quando o Papa emérito decide resignar. Mas vai mais além, trazendo-nos uma perspectiva da vida do jesuíta argentino desde a sua vida “normal” até ao assumir a sua vocação sacerdotal, que há poucos dias comemorou 50 anos.

Não pretendo fazer qualquer crítica cinéfila ou fazer a apologia de uma boa obra da sétima arte. Até porque a crítica tem apelidado a obra de “tendenciosa” na imagem que passa dos dois papas, mas achei interessante o título, directo e simplista da obra, para nos levar à reflexão da nossa humanidade, também presente na figura do Papa.

Foi assim que interpretei aquele episódio ocorrido na Praça de S. Pedro nas vésperas de Ano Novo. Diante do aperto daquela mulher que teimava em forçar o Papa a prestar-lhe atenção, Francisco reagiu na sua “humanidade”, defendendo-se com um gesto que se pode apelidar de violento, diante da ameaça.

E ali será que “vimos dois Papas”? É que a igreja habituou-se a um Francisco de olhar terno e doce, de palavras assertivas mas de gestos delicados. O Papa dos afectos e da proximidade, que beija os doentes e as crianças, que faz visitas surpresa a instituições e casas de pobres, que bebe o mate do chimarrão de qualquer peregrino e se preocupa com a guarda suíça, há horas de plantão frente ao seu gabinete, é um Papa humano e não produto de um “cargo” ou lugar de chefia.

O gesto de Francisco mostrou a vulnerabilidade daqueles que foram “escolhidos entre os fracos” para se dedicarem a uma missão nobre, a de falar e de fazer Deus presente entre os homens.

No episódio não vimos dois Papas, mas sim um homem escolhido entre os homens para conduzir os destinos da igreja neste tempo. Um homem que, também no filme de que falámos, se mostra pecador, arrependido, incapaz de fazer o bem que quer e se deixar seduzir pela humanidade das nossas vontades.

Aprendemos daquele gesto esta dialética entre o bom e mau que em nós existe. Compreendemos, uma vez mais, que a nossa humanidade, sempre em busca da perfeição, no belisco mínimo das nossas vontades pode perder as estribeiras e levar-nos a esses gestos selváticos de auto-defesa que comprometem até a nossa dignidade.

Sejam apenas estes os ímpetos dos nossos erros, porque observando a escala planetária as ameaças contra a paz parecem subir de tom. Tudo porque nos beliscamos, quantas vezes sem razão.

Deixe um comentário