O populismo dá frutos

A tolerância vai sendo substituída pela sede de vingança, tantas vezes exercida sob a forma de violência
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É do mais elementar conhecimento de todos que a palavra “política” deriva do étimo grego “polis” (cidade) e que derivou no termo que define aquela ciência que se dedica ao estudo e cuidado do lugar comum, do seu governo e desenvolvimento, em favor de todos os que a habitam.

Do mais elementar ou não… porque ao que parece o populismo crescente a que temos vindo a assistir nos últimos anos e, concretamente, reportando-nos ao que na passada quarta-feira aconteceu no Estado Unidos, aquilo que de que nos apercebemos é que esta noção não é assim tão clara para todos.

O preocupante desta verdade é que são muitos dos que vão ganhando a confiança do eleitorado que assumem o seu “poder” político, não como um serviço em favor de todos, mas um benefício para a exaltação do seu ego e satisfação dos seus anseios narcisistas.

Este é um dos perigos que o populismo traz consigo mesmo. O termo, que desde logo se assume por uma conotação negativa, designa aquilo a que já foi erro do passado e que não pode voltar a ter lugar, seja no mundo, seja neste “pequeno jardim, à beira mar plantado”, mas que vê já as primeiras folhas desta erva daninha a tomarem conta do seu território.

O populismo nasce sempre de uma mente de ideias radicais, às quais se vão associando outras que compactuam com as suas convicções. Desenvolve-se à sombra de uma figura que se toma como “líder” e cresce pelo fundamentalismo e extremismo com que apresenta as suas convicções.

Como qualquer erva daninha, em grandes jardins ou pequenos quintais, o populismo surge sem se dar por isso. Começa a tomar o lugar de outra planta ali a desenvolver-se e rouba-lhe os frutos, porque quando ela já esta crescida, cortar ou secar-lhe as raízes é mais difícil do que se imagina.

E o mundo e Portugal estão a assistir a isso. As ideias radicais de supremacia dos “bons versus maus” são tão problemáticas como as que as religiões vão transformando em “guerras”, ao classificar de “infiéis” os que professam credos diferentes ou contrários. A tolerância vai sendo substituída pela sede de vingança, tantas vezes exercida sob a forma de violência, que em nada contribui para a edificação da humanidade, nem para o bem da “cidade”.

A Política não é, nem pode ser um palco de exibicionismo e satisfação pessoal. Ela é um serviço, altruísta e exercido “desinteressadamente” como um acto de caridade social, como o relembrou Bento XVI na carta Encíclica “Deus caritas est”, em favor dos outros e sob o compromisso de contributo para o desenvolvimento das nações e a busca do bem universal.

Também Francisco, na mensagem para o dia Mundial da Paz do ano de 2019, vincou a posição da Igreja sobre esta matéria e em diversas ocasiões se tem pronunciado sobre o assunto. Numa delas, em conversa com movimentos e escolas ligados à Companhia de Jesus, o Papa afirmou convictamente que “devemos implicar-nos na política, porque a política é uma das formas mais elevadas da caridade, visto que procura o bem comum”.

Na mesma ocasião, em 2013, referiu: “Num mundo que tem tanta riqueza e tantos recursos para dar de comer a todos, não se pode compreender como há tantas crianças esfomeadas, tantas crianças sem educação, tantos pobres. A pobreza, hoje, é um grito. Todos nós devemos pensar se nos podemos tornar um pouco mais pobres”, assinalou.

Talvez se a política assumisse as suas reais e verdadeiras dimensões não nos surgisse tantas vezes aquela velha questão que enfraquece a fé: “Se Deus é bom, porque sofremos tanto”.

Os frutos do populismo não lhe respondem, mas a causa pública, o cuidado e preocupação para com a “cidade” é um dever de todos nós, para que a justiça brote da sua terra.

 

 

 

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