O património são as pessoas

O património do Interior são as pessoas, as que que arregaçam as mangas, põem as mãos na massa e fazem acontecer
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Na última sessão de Câmara foi aprovada a classificação do Palacete Jardim, que todos nos habituámos a olhar como edifício de grande interesse e exemplo da arquitectura da “arte nova” e há anos desabitado e vetado à degradação.

É louvável a atitude da autarquia covilhanense em mostrar preocupação para com o nosso património, em especial por este imóvel que agora se classifica como de “interesse público”, ainda que apenas ao nível municipal. A atribuição desta categoria é um sinal claro de que o processo de classificação, que já decorre há largos anos, pode agora abrir novas portas, até que o edifício abra as suas e possamos contemplar a beleza e singularidade da arquitectura da época.

Projectado pelo arquitecto Ernesto Korrodi, na década de 20 do século XX, o Palacete Jardim foi mandado edificar por José Maria Bouhon, proprietário da Fábrica do Sineiro, é deveras um exemplo de um edifício belo, marcado pela disposição de alpendres e varandas salientes, que o conotam com um romantismo único na Covilhã.

A mistura de materiais, como o granito, o azulejo, o mármore e o ferro, em nada ferem os seus traços. Custa sim, ver as persianas corridas, as portas fechadas e os sinais de um certo abandono, que nos desclassifica a cidade.

E aí há bastante para comentar… São as impotências financeiras de um Interior ostracizado e de uma cultura que não tem lugar nos orçamentos do Estado, que vão provocando “a morte do artista”, ou pelo menos da sua obra.

A Covilhã é rica em património, não apenas sacro, nas imponentes igrejas que marcam a geografia da nossa encosta, mas num conjunto de edifícios emblemáticos e históricos, apesar da nossa história parecer muito curta.

O esforço para a requalificação do Teatro Cine e do Museu Municipal são um sinal da atenção a estas realidades. Mas não são suficientes, por que há muito para “reconstruir”.

A Universidade da Beira Interior tem sido uma das grandes intervenientes neste processo de requalificação do nosso património. As nossas fábricas desactivadas deram lugar ao saber e à investigação, à cultura e ao desenvolvimento do que somos. Os investidores privados, à sombra desta realidade universitária, têm aproveitado as oportunidades para dar vida ao Centro Histórico e algo parece começar a acontecer.

E uma vez mais se comprova: se não formos nós? O património do Interior são as pessoas, as que que arregaçam as mangas, põem as mãos na massa e fazem acontecer. Esta prova é mais do que evidente, quando subsistimos à ignorância que nos é dada por parte dos poderes centrais.

Surge um sinal positivo na redução dos valores das portagens das estradas que nos retiram desta nossa sina de pertencermos à província. Oxalá isso permita aos tais poderes centrais pedirem um desconto para vir ao Interior conhecer e valorizar o nosso grande património, que são os resilientes que aqui se gastam pelo que é nosso!

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