O livro da religião

Não há Igreja sem Palavra, não há cristão sem conhecimento de Jesus
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O Papa Francisco, marcante nas medidas e nas palavras, trouxe mais uma novidade à Igreja quando decidiu instituir o III domingo do tempo comum de cada ano litúrgico como o domingo da Palavra de Deus, e que se celebra pela primeira vez neste domingo 26.

É uma chamada de atenção e um alerta de Francisco, para que a Igreja se encontre consigo mesma e com as bases do seu ser e da sua essência. Se o Papa deseja instituir este dia dedicado à Bíblia, creio eu, é porque sente que a Igreja, cuja fé nasce da revelação ali contida, não está a dar a total importância à Palavra onde deveria encontrar a sua “fundação”.

Bento XVI, na exortação apostólica pós-sinodal Verbum Domini, em 2010 afirmou que  “o cristianismo não é a religião do livro”, como talvez muitos a considerem e a vejam. E de facto se colocássemos o cristianismo como uma religião seguidora de um conjunto de preceitos e dogmas que nos chegaram por revelação divina, poderíamos cair num erro de interpretação dos mesmos.

A bíblia, o livro que para nós é sagrado, exige uma abertura cultural e histórica, que não nos encerre no sentido literal e fundamentalista que se lhe atribui, mas antes nos disponha a uma abertura para com toda a relação de Deus com o mundo.

Mas, se uma interpretação literal e rigorosa das palavras sagradas conduz o “leitor” a um fundamentalismo inóspito e radical, a ignorância do livro também pode conduzir a uma religiosidade descaracterizada do seu sentido verdadeiro e fundamental.

Creio que esta é a preocupação de Francisco, creio que tem de ser a preocupação da Igreja, que se procura rever e compreender a si mesma. Se a Bíblia não for a base do seu crer e o fundamento da sua fé, facilmente a Igreja se pode tornar em tudo, menos naquilo que deveria ser.

Não há Igreja sem Palavra, não há cristão sem conhecimento de Jesus cristo e da sua mensagem, porque caso contrário, poderemos ser confundidos com um grupo de devocionistas que fundam o seu agir e o seu querer a partir de convicções que circundam o essencial, sem nunca lá chegar.

Por isso, o esforço de Francisco é o de nos ajudar a manter uma relação saudável e umbilical com aquele livro de onde os cristãos recebem o fundamento para o que são, o livro que mostra e revela quem é o próprio Deus a dar-se a conhecer aos homens.

“O Domingo da Palavra de Deus”, sublinha o Pontífice, “situa-se num período do ano que convida a reforçar os laços com os judeus e a rezar pela unidade dos cristãos (…). Não é uma mera coincidência temporal: celebrar o Domingo da Palavra de Deus expressa um valor ecumênico, porque as Sagradas Escrituras indicam para aqueles que se colocam à escuta o caminho a ser percorrido para alcançar uma unidade autêntica e sólida”.

Por isso o cristianismo não é a religião do livro, em sentido rigoroso, mas o Livro é a fonte do agir cristão!

 

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