Nada se perde, tudo se transforma

Será que vamos manter os novos hábitos adquiridos por causa da pandemia?
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Dei voltas e mil voltas à memória para escolher o tema desta partilha semanal. Abundam as temáticas, quase todas elas com um epicentro que partindo do Oriente chegou em passos largos à maioria das nações, sobretudo as europeias que, segundo os dados, são as mais afetadas com o flagelo desta pandemia.

Voltas e mais voltas para versar algumas linhas que tracem esperança, que reflitam uma crítica saudável e despertem o pensamento sobre as muitas realidades que nos envolvem e as transformações velozes a que estamos sujeitos.

Tudo está a acontecer muito rápido, todos estamos a demonstrar uma grande capacidade de adaptação, ainda que inconformados com o ter de assim ser. Será o tal “milagre” de que fala o Presidente? Mais tarde obteremos essa resposta, porque agora não é tempo de fazer balanços, mas de delinear estratégias.

A lei de Lavoisier deixou-nos a certeza de que na matéria, “nada se perde, tudo se transforma”. Este é o tempo de percebermos essa transformação: a dos hábitos de consumo, a da racionalização dos bens e a gestão das nossas relações.

Os sinais e níveis de poluição são um sinal claro de que o mundo avança mesmo que não se consuma tanto, que não se produza tanto, que não se abuse da casa comum, desrespeitando-a como o temos feito. A economia sofre, sabemo-lo, mas lembrando uma das expressões do Papa Francisco, logo no início da sua actividade apostólica, não nos queixávamos de que esta “economia mata” (Alegria do Evangelho).

A racionalização dos bens, as disparidades sociais, os múltiplos casos de degradação social e o crescente número de famílias, a entrar num novo sobrendividamento, serão dados de que ouviremos falar com maior frequência muito em breve. Falta já o essencial a muitas delas neste concelho envelhecido e esquecido pelas câmaras de televisão. As medidas de apoio social das autarquias são fundamentais e necessitam-se já, assim como a nossa partilha possível para com esta realidade.

Já as nossas relações podem correr o perigo de se tornarem cada vez mais virtuais. Graças às redes, às ferramentas tecnológicas e à múltiplas plataformas digitais que têm auxiliado o contacto com as famílias, a comunicação não tem faltado, mas ela faz-se de afetos, de toques e aromas, que de forma alguma se podem substituir. Mas… continuaremos a viciação de uma comunicação virtual, ou passaremos ao acolhimento, aos braços estendidos e às mãos que partilham mais do que críticas?

Nada se pode perder. Deste tempo nada se pode perder, sobretudo as grandes lições que nos exigiram tantas adaptações, tantas lutas, tantas conquistas diante de tantas desventuras. Tudo tem de se transformar, tudo tem de ser melhor, tudo tem de concorrer para que a tal sociedade justa, fraterna, cultivadora de uma ecologia integral que busque o bem comum e trabalhe para que ele aconteça.

Surgem os primeiros sinais de algo novo, que necessariamente será algo transformado. O 25 de Abril terá direito a honras parlamentares, a Igreja vai recomeçando a abrir portas, os pequenos negócios podem repensar-se, os cercos sanitários vão diminuindo, mas e o que trará, para já, tudo isto?

O tempo, sempre sábio na sua forma de agir, nos dirá. Mas, entretanto, fica-nos a questão: será que vamos manter os novos hábitos adquiridos por causa da pandemia? Será que nos atreveremos a viver novas expressões e formas de solidariedade? Será que nos confinaremos ao nosso espaço, sem ultrapassar a barreira da privacidade do outro? Ou será que nos limitaremos a colocar um remendo novo num vestido velho?

Transformemo-nos…

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