Mentir é muito feio

Mente-se muito, no dia-a-dia. Para se ser simpático. Para evitar chatices
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Assunção Vaz Patto

Mentir é muito feio. De vez em quando, ouvir estas coisas é importante, e repetir, para nos centrarmos no que está certo e errado, sobretudo num mundo em que há múltiplas variações de cinzento entre o branco e o preto, o bom e o mau, o direito e o esquerdo.

O problema é que é fácil, em situações de aperto dá imenso jeito, e se não formos apanhados, então é uma maravilha. E estava a lembrar-me disto a ouvir o senhor M, que veio queixar-se de um tremor das mãos, fino, com um hálito peculiar, e a garantir-me que só bebia um copo de vinho ao domingo.

Gostei dele. Era um simpático. Devia ter a minha idade, mas as máscaras disfarçam imenso e chamou-me sempre “doutorinha”, o que não ajuda muito porque quem é que vai fazer alguma coisa do que diz uma “doutorinha”? Foi um charme a consulta toda, e a culpa do tremor era do trabalho- o senhor M trabalhava na construção civil. Ele tentou “meter-me no bolso”, como dizem na minha terra, e eu fui deixando, até pegar nas análises e ver um fígado completamente desfeito. E dizer-lhe que, ou eram dois litros de vinho ou eram três litros de vinho, mas nunca seria só ao domingo. No fim da consulta, passei a doutora e não sei se fiz um amigo, porque ninguém gosta de más noticias. Na Grécia clássica matavam os mensageiros que as traziam

Mente-se muito, no dia-a-dia. Para se ser simpático (está cada vez mais nova ou está tão magrinha). Para evitar chatices (não vi, não sei, não me lembro, estou quase a sair, tive uma reunião, etc…). Quem nunca mentiu, as tais mentiras ditas inofensivas, que nos ajudam a sair de situações sociais chatas, que atire a primeira pedra…

Mas hoje em dia vivemos num mundo que deixou de ter verdades e mentiras e passou a ser um mundo cor de rosa, um mundo “à la PS”, em que as pessoas vivem em ilusões. Algumas ilusões são até engraçadas e quase pueris, se não tivessem pontos que podem ser graves. Como é o caso dos desenhos das bicicletas nas ruas da Covilhã, a simbolizar uma ciclovia que existe na cabeça de alguns políticos, mas que de facto não existe (os desenhos no chão não fazem uma coisa.) E podem originar acidentes graves. Ainda morre alguém.

Como é uma ilusão as múltiplas promessas de apoios às pequenas e médias empresas, que estão em papéis, algures, mas o Estado continua a não pagar, a atrasar os pagamentos, levando à falência empresas a quem deve dinheiro. Como é uma ilusão que não há corrupção na política, que não houve manipulação dos currículos do senhor Procurador, que não houve mentiras em Tancos, e se calhar a inépcia com que foram conduzidos os fogos de 2017 e com que está ser conduzida esta pandemia…

E a maior de todas as ilusões, a ilusão de estarmos a ganhar a guerra do vírus – o tal que só sai depois das 13 horas no sábado e no domingo, e que tem medo no Natal e, portanto, não há nenhum problema no Natal, mas depois volta no fim-do-ano.

O Governo, à força de ter estes momentos de estado de emergência, está a ter laivos de ditadura e a ficar convencido que o vírus faz o que o Governo quer. Infelizmente, os tempos que vamos vivendo estão a mostrar que o vírus que veio da China não é como o Governo pensa. Ao fim de tanto tempo a iludir, o Governo ilude-se a si próprio. E vamos ver muito mais mortes por causa disso. Mentir é mesmo muito feio.

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