Mães, uma violência de que não se fala

Mulheres que trabalham, que perderam ou nunca tiveram apoio para fazer o trabalho doméstico
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Assunção Vaz Patto

Nestes dias de pandemia, tenho pensado na violência doméstica, e sobre quem está em casa com alguém violento, com medo, com miúdos a gritar e com os nervos em franja. Não deve ser fácil. Não pode ser fácil. A violência doméstica contra crianças, adultos e velhos é um processo profundamente errado, uma afirmação de poder físico sobre alguém mais fraco que, sinceramente, é execrável. Nunca tive paciência para gente que, porque tem um punho maior, acha que manda no mundo. Ou pelo menos em casa. É cretino, é ridículo e só dá mesmo vontade de ter um punho maior e dar-lhe com ele…E aplica-se o mesmo aos punhos invisíveis de quem têm mais dinheiro, mais conhecimentos, ou um partido maior, ou grita mais alto. Vai tudo dar ao mesmo. É execrável.

Há muitas formas de violência doméstica. Há a forma física, e sabemos as consequências… imensas mulheres mortas por ano, numa estatística que nos levanta dúvidas sobre a civilidade real do povo português – e do papel da escola e da sociedade na elevação dos concidadãos. Era muito interessante saber quem são as vítimas e quem são os agressores (em termos sociais, económicos, e que parte da sociedade representam) mas, por qualquer razão, não são esses pormenores que saem cá para fora. Resta-nos pensar se de facto a sociedade está a cumprir o seu papel. Que eu não acredito na bondade da espécie, mas acredito na capacidade da sociedade moldar esta última. Mas, para isso, é preciso que seja esse o objectivo da sociedade – e tenho muitas dúvidas sobre isso. Ou então alguma coisa está a falhar (e se pensarmos no número de pessoas que anda sem máscara na rua, e mesmo em espaços fechados nesta altura, alguma coisa está a falhar mesmo na moldagem social…)

Esta semana ouvi de duas mães que estão em teletrabalho, que cozinham, lavam, passam a ferro e trabalham, a mesma expressão: “Já não aguento mais!” Sugeri reduzir a limpeza, e o passar a ferro, mas já tinham feito isso. O maior problema mesmo eram as outras pessoas em casa, que estavam à espera das coisas feitas: e estamos a falar de um marido, avós e avôs e a camada jovem, assim auto-intitulada. Pois a camada jovem não pode ajudar? “Andam muito nervosos e têm aulas e têm testes e é muito mais complicado pedir, o melhor é fazer eu”. E se ficar doente? “Não posso ficar doente, mas não aguento mais…Mas não me posso queixar muito…” – dizia uma – “…há gente muito pior e com problemas bem piores”.

Há problemas graves, de facto: o desconfinamento que é necessário está a marginalizar trabalhadores com doenças crónicas, idosos que têm de se manter isolados, lares que têm de se manter fechados, sem conseguir explicar porquê aos idosos que lá estão dentro. Gente sem trabalho. Gente infectada. Gente que está sozinha a lutar contra as ondas de desespero que as televisões passam, como se precisássemos sempre de emoções fortes e estas não abrissem brechas em cada um de nós (nos últimos dias, depois de receitas via telefone, junto sempre a maior e melhor mezinha – não veja televisão- e sobretudo não veja telejornais! Para algumas pessoas, também é uma forma de violência).

Mas, no Dia da Mãe, devíamos pensar numa violência de que não se fala: destas mães, mulheres que trabalham, que perderam ou nunca tiveram apoio para fazer o trabalho doméstico, destas mães que continuam a trabalhar e que cozinham e lavam e passam e organizam – e não têm ajuda de ninguém. Nem do marido, que se calhar nem se apercebe, nem da camada jovem que tem imensos problemas e nunca percebe os problemas dos outros. Muita gente dirá que a culpa é das mesmas mães, que nunca pediram, que protegeram demais. Provavelmente terão razão. Mas não serve de nada culpar a vítima. Precisamos, sim, de garantir a estas mulheres que podem mudar a sua situação, se quiserem.

É preciso reconhecer a importância destes trabalhos, deste esforço a nível familiar e social. E reforçar a ideia de que somos uma comunidade na família, em que todos têm de contribuir, para todos poderem receber. E em que todos sejam igualmente importantes, independentemente do físico, do dinheiro que trazem ou da juventude que têm. Para que a família reconheça a cada um a importância que tem, como pessoa. E para acabar de vez com todas as formas de violência, umas mais graves, outras menos, mas sempre destrutivas da sociedade justa que queremos construir.

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