Líder ou pastor?

Um líder não surge do acaso. Possui um perfil e características marcantes que fazem dele uma pessoa diferente
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Nesta quinta-feira, 16 de Janeiro, o calendário marca a presença de 15 anos do Bispo da Diocese da Guarda, D. Manuel da Rocha Felício. O NC foi ao encontro do “pastor diocesano” para saber como tem sido esta década e meia como Bispo de uma das dioceses do Interior, caracterizada pela desertificação e envelhecimento. Dessa conversa surgiram as centrais desta semana que oferecemos aos nossos leitores.

Dessa conversa, surgiu também uma questão, oportuna para este tempo, sobretudo relativa à figura de padres e bispos, cardeais e Papas: ser um “eleito de Deus” na missão sacerdotal, faz de nós líderes ou pastores?

A linguagem por si só é motivo de reflexão. Ainda se pode usar o termo “pastor” para designar aqueles que são convocados para acompanhar e orientar uma comunidade cristã? Será o termo demasiado bucólico ou beato? É que até a referência ao pastor parece ser cada vez mais diminuta, diante da escalada da industrialização das nossas actividades económicas.

Falaremos então de líderes? Num tempo em que tanto se debate a liderança de tantas realidades, numa era em que o couching, a auto- motivação e outras formas de “auto- ajuda” são cada vez mais buscadas, olhamos para os membros da hierarquia da igreja como líderes?

Então será necessário tentar perceber o “que é ser um líder?”. Entre as suas principais características estão a visão, a paixão, o pensamento estratégico, a capacidade de comunicação, a habilidade em unir pessoas, a coerência, a capacidade de adaptação, a disciplina, a resolução de conflitos, a constante busca da excelência e a capacidade de se relacionar.

Um líder é capaz de conquistar o respeito de seus “subordinados”, pelo que é e não pela sua posição estratégica dentro da hierarquia, tem de ser dotado e cultivar um grande sentido de justiça.

Um líder não surge do acaso. Possui um perfil e características marcantes que fazem dele uma pessoa diferente. E exprime a sua liderança ao reconhecer os limites pessoais, dando espaço ao outro e promovendo o seu crescimento. O líder faz sempre sentir o seu feedback e reconhece os méritos dos que consigo colaboram, saber tomar decisões, às vezes assertivas, mas ainda assim acredita e estimula a inteligência coletiva.

E, em tudo isto, talvez possamos ver a figura do pastor. Não apenas o que palmilha as serras e campos, mas o que conduz as almas e as procura fazer chegar até Deus.

Que assume esta missão não surge do nada, sente-se eleito e por isso alguém lhe dá responsabilidades, procura semear a união entre os que “lidera”, indo à frente, a meio e no fim do rebanho, para conduzir, animar e encorajar, segundo a concepção do Papa Francisco. O pastor não olha o outro como um subordinado, mas como “um próximo” que tem de sentir e fazer cada vez mais próximo, para lhe fazer sentir a fraternidade da comunidade. E talvez aí se sinta a maior dificuldade na liderança de um pastor: criar comunidade.

Por isso, apesar de ouvirmos falar de muitos líderes, categoricamente afirmo: “ainda há pastores!”

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