Já não chega o “foi sempre assim”

A igreja não poderá sair desta crise da mesma maneira que nela entrou, ou seja, de repente, sem tempo para refletir
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Ninguém tem dúvidas de que uma nova página da história se tem vindo a escrever desde que a Organização Mundial da Saúde declarou o estado de pandemia para todo o mundo, depois da propagação do vírus sars- cov 2 sem qualquer possibilidade de antídoto que o pudesse travar.

Não são apenas os efeitos colaterais desta pandemia, as consequências a médio e longo prazo que surgirão, que nos ficarão nos anais da história, como também, e sobretudo, a sua força e capacidade de colocar travão a um mundo que se sentia imparável.

Mas para além de toda a mutação social, económica e política, há uma outra questão que se levanta no meio de tudo isto: que sentido tem a existência?

É neste ponto, fundamental, que a Igreja deve centrar atenções e promover uma séria e oportuna reflexão, que não pode passar ao lado de uma humanidade marcada pelo selo de uma doença que mudou os nossos hábitos.

Foram milhares as paróquias que fecharam portas, milhões de missas que deixaram de se realizar, centenas de padres ficaram como que “sem muito para fazer”, porque o corre- corre entre paróquias teve de abrandar, forçosamente.

E num instante dois fenómenos passaram a estar fora de contexto: por um lado, a secularização do Ocidente, de que se falava desde há décadas; por outro, a falta de vocações sacerdotais, que ao que se viu já não se notou assim tanto.

Tudo se alterou e de repente os actos públicos de fé passaram a ser digitais, com tudo o que de bom e mau daí possa surgir. As igrejas esvaziaram-se, os lugares são marcados a um limite máximo, a proximidade ao outro deixou de ter sentido na pregação, o abraço da paz não tem validade e agora sim, mais do que nunca, andamos às cotoveladas uns aos outros.

Será este o tempo da mudança para a Igreja? Será este o fim da “Igreja das massas”? Ou será apenas um parêntesis da sua acção? Creio que será mesmo assim. Logo que abrandem os efeitos da pandemia manifestar-se-á o desejo de ver os templos cheios e as procissões nas ruas como que recuperando o tempo perdido e reclamando o espaço para a fé, como salvação do ser.

Não duvido que seja pela fé que se recupera a esperança. Estou convicto. Mas creio também que a Igreja não saberá aproveitar este tempo para criar o espaço de acolhimento e proximidade para com aqueles que a buscam na sua essência mais verdadeira. Precisaremos de uma igreja que esteja verdadeiramente atenta às “alegrias e as esperanças, às tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem”, desejo do Vaticano II, escrito na constituição Gaudium et spes (1).

A igreja não poderá sair desta crise da mesma maneira que nela entrou, ou seja, de repente, sem tempo para refletir, fechando portas e sem capacidade de resposta para o grande desafio que é levar a mensagem e acompanhar. Não podemos retomar tudo da mesma forma, acrescentando-lhe apenas a máscara e o álcool gel.

O coronavírus é um grito para que se interprete toda a nossa humanidade, tudo o que nela se implica. E a religião é uma dessas componentes humanas, que merece e necessita de “revisão” no seu agir.

Nunca mais pode ser assim, só “porque sempre foi assim”. Esta é a hora de reconhecer e agir que as alegrias e as dores do mundo “são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo”. Assim, conseguiremos evangelizar, assim demonstraremos que num estilo pastoral de proximidade e nos despe das nossas liturgias “ocas”, que numa comunicação simples distante dos discursos teológicos e morais, que no corte com uma estrutura e hierarquia pesadas, evangelizaremos na era pós-covid ao estilo de Jesus Cristo, que “não tinha biblioteca e nem percebia nada de finanças”.

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