“Já la vem a Santa”

Talvez este ano, sem barulhos nem ruídos, sem cores e arraiais, a festa se tenham centrado no essencial
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Este ano tudo foi diferente e Agosto não foi excepção. As festas religiosas, as romarias, a alegria das nossas aldeias e vilas que encontram na devoção do seu patrono ficou por casa e não deu colorido às ruas nem ruído às noites de um Verão em tempos de pandemia.

Do único que se pode e vai fazendo, é o regressar ao essencial das festas religiosas e tradicionais. A quermesse não se realizou, o baile não se dançou, os foguetes não rebentaram e tudo ficou mais triste. Mas, de entre tudo o que marca a nossa cultura religiosa, que sempre se desenha com as cores do profano, ficou o essencial.

Talvez este anos, mais que nos outros, os olhos de quem vem, para celebrar a Virgem Maria, seja lá com que título for, ou dos santos que nos protegem e intercedem pela comunidade, estiveram e estão somente voltados para essas figuras de referência, que dão nome ao ponto alto, esperado durante o ano inteiro em cada pequena aldeia ou vila e até cidade de Portugal.

A procissão, ainda que diferente, com a imagem da padroeira ou do padroeiro, veio ao encontro das gentes que com mais ou menos fé, com maior ou menor devoção. Vieram à janela ou à varanda e chamavam os que à volta da mesa “improvisavam” a festa que junta a família e os amigos.

“Já lá vem a Santa” – ouve-se por estes dias aos que em casa permanecem. E esta expressão, que pode revelar pouca cultura teológica, não é de forma nenhuma descabida. Em linguagem correcta dir-se-ia que se aproxima a imagem daquele ou daquela que por nós intercede no céu – essa é a missão de um padroeiro como o crê a fé cristã e o vive a cultura portuguesa.

Mas na nossa simplicidade religiosa lá chamamos a Virgem Maria ou outro dos amigos de Deus como “o Santo ou a Santa”. De algum modo nos aproximamos daquela escultura a que nos habituámos a ter como referência do nosso afecto cristão, mas afastando-nos da velha crítica de que os adoramos.

É a fé feita de afectos e de uma necessária materialização do transcendente a que se expressa com estas designações e manifestações. Aliás, todos precisamos de sinais sensíveis que nos apontem para o transcendente, para o invisível.

E, por isso, talvez este ano, sem barulhos nem ruídos, sem cores e arraiais, a festa se tenham centrado no essencial, que é observar o exemplo dos que, antes de nós, viveram um afecto tão maior que o nosso ao Deus dos afectos pelos homens.

Este ano, marcados pela propagação de uma pandemia ímpar na sociedade pós-moderna, pudemos saborear que afinal o essencial não está em muito do que fizemos como acessório, mas antes naquilo que é núcleo e centro do que nos deu forma e fez crescer a nossa própria cultura religiosa.

Desejamos que o covid-19 não nos continue a condicionar desta forma. Mas é certo que estes ensinamentos podem ser uma experiência para nos fazer voltar ao essencial, que é sentir a presença invisível do Transcendente na realidade visível da nossa existência tão limitada.

“Já lá vem a Santa…”- é hora de nos aproximarmos da varanda, de reabrir as janelas da esperança de que se tudo não ficar bem, ficará mais verdadeiro!

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