Haverá sempre Natal

Haverá um Natal diferente, menos ruidoso e “folclórico”
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Falta pouco mais de um mês para o acontecimento que reúne as famílias, que desperta sentimentos nobres e multiplica as acções de beneficência pelo mundo dos frágeis. Aproxima-se o Natal, tempo de muitas ilusões, predominantemente marcado por uma fantasia “quase incompreensível” e por um consumismo exacerbado.

Talvez um Natal contraditório ao seu verdadeiro espírito e esquecido do essencial, que, na verdade, encontra referência na pobreza de um acontecimento que marcou o rumo da história e trouxe à civilização ocidental um motivo maior de comemoração. Motivo esse, religioso, que para muitos não tem significado algum e que por isso procuram paganizar o Nascimento de Jesus Cristo, o Deus feito Homem.

 E é precisamente aí que se coloca a questão, quando muitos se perguntam se vai ou não vai haver Natal. Claro que haverá Natal! A comemoração de um acontecimento histórico, seja de que índole for, apenas poderá terminar se isso deixar de ter relevância para quem, nos seus valores, na sua identidade perder a memória do que é fundamento para as suas crenças e as suas convicções. E por isso, diante dos milhares e milhares de crentes cristãos, espalhados pelo mundo, nunca poderá deixar de haver Natal.

A pandemia provocada pelo sars- cov 2 questiona-nos sim, a forma como viveremos este Natal. Desperta-nos para uma realidade, novamente dura e estranha, de não podermos desenvolver uma actividade económica que era um desafogo para o comércio, que fazia crescer e gerava riqueza para o Estado e que alimentava muitos egos. A restauração, de quem tanto temos ouvir falar pelas dificuldades sentidas, um dos sectores mais prejudicados por causa da impossibilidade dos convívios, sentirá a falta dos jantares de grupo e das empresas. As praças, já engalanadas pelas luzes e decorações que apontam a festa, não terão mercadinhos (de natal), nem carrosséis que alimentam as tais fantasias das crianças e seus pais ou avós. E tudo será diferente…

O próprio presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), admitiu esta semana que poderá não haver a tradicional “missa do galo”. Mas, ainda assim, não deixaremos de ter Natal. D. José Ornelas explicou claramente o que é preciso para se entender o Natal e evocou, em primeiro lugar que é necessário fazer “tudo para defender a vida”, perante a ameaça da Covid-19.

O Bispo de Setúbal e presidente da CEP deixou o apelo a uma celebração familiar e com uma especial atenção às pessoas mais fragilizadas, apontando para o bem maior: “Para que os nossos avós cheguem ao próximo Natal, se calhar é necessário que neste Natal não estejamos juntos”.

É aqui que está o ponto nevrálgico de toda a questão: uma readaptação a nós mesmos, aos nossos hábitos e costumes, que exige sacrifício é certo, mas cujo sacrifício terá efeitos positivos e vantajosos para todos.

Haverá Natal, em que souber viver a esperança dos dias melhores, mesmo que tudo aponte para o seu contrário.  Haverá um Natal diferente, menos ruidoso e “folclórico”, menos (des)centralizado no que é supérfluo e a abrir oportunidades para se contemplar a essência de cada coisa e da certeza de que esta é a festa do Deus que visita a Terra.

Talvez no meio deste silêncio que o confinamento nos tem trazido, haja escuta e se entenda o que nos diz, como fala, e onde se ouve o ensurdecedor silêncio de Deus.

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