Há um vírus velho a renascer

Sejamos precavidos, responsáveis e atentos (…), mas não nos deixemos aterrorizar
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Muito se tem falado do “novo corona vírus” ou “covid 19” neste últimos tempos. Aliás, estamos todos um pouco cansados deste tema e da tragédia que ele vai provocando além- fronteiras e agora também aqui, por onde ele passou e parece ter deixado algum rasto.

Parece-me que esta preocupação, que é algo legítima, está a ser demasiadamente exacerbada. Falar dela, alertar e prevenir é fundamental, mas transformá-la na única realidade que merece preocupação, além de redutor, está a causar sérias influências, com efeitos nefastos, em muitos quadrantes da vida social.

Atrever-me-ia a dizer que há um certo “terrorismo” que se esconde nos noticiários e na onda viral que contagiou as redes sociais e a informação em geral. É como que um velho vírus, o do medo, a renascer e a provocar estragos na nossa fragilidade humana, sobretudo neste tempo em que nos vamos sentido os “super-homens” da pós-modernidade.

Bem sabemos, por diversas experiências mundiais que vêm desde aquele 11 de Setembro de 2001, que o terrorismo, a longo prazo, faz triunfar o medo sobre as vítimas. Seja nos sobreviventes, nas famílias das vítimas ou nas comunidades, permanece o temor de que o pior se possa repetir. Frequentar locais públicos parece perigoso, os aglomerados de pessoas são desaconselháveis e a fuga social é geradora de uma certa ansiedade diante das ameaças, ainda que possam ser imaginárias.

A integridade física e emocional é direito, disso não o duvidamos, mas ao cumprirmos todas estas “prescrições” legais para evitar riscos, estamos também a quebrar a relação de confiança no outro. De algum modo estamos a provocar o isolamento de cada um de nós e dar lugar àquela força de destruição das relações interpessoais, cada vez mais baseadas na desconfiança.

Há um certo terrorismo da saúde pública a contagiar-nos nos nosso hábitos, nas nossas relações e nas nossas vivências, subtraindo-nos noção de paz, a sensação de segurança e independência e a relação de cidadãos da “polis”. E o Homem, o cidadão que se movimenta numa sociedade supostamente livre, vê- se obrigado a recolher-se, a travar as suas rotinas e a sentir-se intimidado.

Das subtrações provocadas por este “terrorismo”, transbordam como consequência uma certa “paranoia” no contacto, nos hábitos de higiene e de proximidade, um isolamento provocado pelo medo, a quebra da confiança, um sofrimento silencioso, dificuldade nas relações pessoais.

Todos temos uma certa concepção de que no terrorismo, as vítimas são alvos imediatos da violência exercida, geralmente escolhidas de modo aleatório, servindo como mensagem que o grupo terrorista pretende transmitir à sociedade em geral, ou a um governo ou a uma organização internacional.

Não estará este vírus a exercer esse terror em cada um de nós? Não estaremos a dar-lhe um lugar que nos aprisiona e de algum modo nos bloqueia no livre agir?

Sejamos precavidos, responsáveis e atentos às normas de segurança e protecção que provoquem os riscos de contágio, mas não nos deixemos aterrorizar por uma informação desenfreada, com a qual somos bombardeados a todo o minuto.

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