Goleada do desportivismo

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Os juvenis do Sporting da Covilhã entraram em campo apenas com oito jogadores, para jogarem com o mesmo número de elementos que o Ródão tinha disponíveis

 

Época de Natal. Vários jogadores foram passar a quadra fora, junto das famílias. A partida não foi adiada e a equipa de juvenis do Vila Velha de Ródão chegou ao jogo de dia 22 com apenas oito futebolistas. Enquanto o “onze” escalado aquecia, o treinador do Sporting da Covilhã decidiu que “não seria justo” entrar em campo em superioridade numérica e três ficaram no banco.

Durante a segunda parte nova contrariedade. As cãibras não permitiram a um elemento do Ródão continuar e José Rosa fez sair também um jogador serrano. O encontro continuou com 14 no relvado.

A formação de Vila Velha, sem nenhum juvenil de segundo ano e com quatro iniciados em campo, perdeu em casa por 13 golos sem resposta, mas o treinador do Sporting da Covilhã considera que, sobretudo nos escalões de formação, tão ou mais importante do que o resultado são os valores transmitidos.

“Estávamos ali para jogar, não para deitar ninguém abaixo nem para desmotivar”, acentua o técnico do Covilhã, ao NC. “Temos de dar o exemplo. Toda a gente gosta de ganhar, mas não me sentiria bem ganhando a jogar com 11 contra oito. Sabendo as condições do nosso adversário, estaríamos a ir contra o princípio desportivo”, acrescenta José Rosa, que contou com a anuência imediata do adjunto, Rodrigo Matos, e afirma que “ninguém questionou” a decisão tomada. “Nem houve discussão”, recorda.

A situação foi inédita para o treinador dos “leões da serra”, de 27 anos, mas a decisão não mereceu hesitações. “Damos cultura futebolística, mas nestas idades também ajudamos a moldar pessoas, a criar personalidade, a transmitir princípios. Se começássemos com 11, o mais certo era o jogo acabar mais cedo”, sublinha José Rosa.

“Tenho de louvar a atitude”

O Ródão debate-se com as dificuldades de ter uma base de recrutamento curta, num meio pequeno e desertificado. Tem 17 jogadores no plantel. Sabia que no dia da partida não contava com cinco, um estava lesionado e três adoeceram. Duas semanas antes foi pedido ao Covilhã para adiar o jogo, só que a data pretendida já estava ocupada.

João Inácio, 49 anos, preferia que os serranos se tivessem disponibilizado para jogar em outra data, mas elogia o gesto do técnico adversário, numa situação que nunca tinha vivido em mais de duas décadas como treinador.

Ponderou não jogar, mas uma eventual multa dissuadiu-o. O encontro podia ter acabado aos primeiros minutos. Bastava dois jogadores simularem uma lesão. Perderiam apenas por três, só que João Inácio entende não ser a atitude correcta a ter na formação de jovens.

“A iluminação do estádio é boa, podíamos jogar numa altura qualquer, escolher outra data. No entanto, tenho de louvar a atitude do treinador do Covilhã e no final fui dar-lhe os parabéns. Nunca me tinha acontecido”, salienta o timoneiro do sétimo classificado, o Vila Velha de Ródão.

Durante 90 minutos os seus jogadores suaram para tapar os caminhos para a baliza. Já o Covilhã, segundo na tabela, pôde refrescar toda a equipa. Apenas o guarda-redes não foi substituído.

Jogo sem qualquer cartão

Para João Inácio, mais do que o resultado, importa reflectir sobre as dificuldades de recrutamento fora das cidades e as assimetrias no território. Dos dez clubes iniciais, dois desistiram da prova. “É uma vila pequena, temos muita dificuldade em reunir um conjunto de jogadores”, constata, enquanto vê emblemas com mais de 30 jovens no plantel.

José Rosa frisa que em partidas com resultados muito desnivelados os jogadores se “podem sentir revoltados” e tornarem-se indisciplinados. Não foi a postura do Ródão, que o treinador do Covilhã enaltece, por terem disputado o encontro com galhardia e dentro das normas. Em todo o jogo registaram-se apenas “três ou quatro faltas” e não foi mostrado qualquer cartão. Nem o branco.

O técnico do Covilhã considera ter protagonizado uma acção em que se justificava “o reconhecimento” do cartão mostrado por comportamentos eticamente relevantes, mas garante tal possibilidade não lhe ter “passado pela cabeça” na altura em que tomou a decisão de respeito pela conduta desportiva. “Não foi esse o intuito”, reforça.

Faltam duas jornadas para entrar na Fase de Campeão. Certo é que neste dia os dois emblemas venceram o campeonato do desportivismo e da dignificação do futebol.

 

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