Entre quatro paredes

As medidas de distanciamento social para travar a covid-19 fizeram com que a maioria da população esteja em casa. Se para uns os dias são longos e custam a passar, outros viram as tarefas aumentar
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Há três semanas que Cristina Lopes, 43 anos, está em casa, num prédio da Covilhã, com as filhas, e afirma nunca ter lido tão pouco ou visto tão poucas séries ou filmes. Não há tempo. Entre o teletrabalho, acompanhar duas menores nos deveres escolares e dar conta das tarefas domésticas, as horas passam a correr para o tanto que há a fazer e escasseia a disponibilidade para o lazer.

Quando “dá uma vista de olhos nas redes sociais”, Cristina Lopes não se identifica com a realidade aí mostrada por outras pessoas recolhidas em casa, para evitar a propagação do novo coronavírus, responsável pela pandemia da covid-19. “Tenho de gerir o meu trabalho em casa, gerir a escola das miúdas – uma no terceiro, outra no oitavo anos – a própria energia anímica não é a mesma. Acabo por me desgastar mais do que quando estava a trabalhar em condições normais”, descreve a designer para quem, como muitas outras famílias, mais tempo em casa não é sinónimo de mais tempo livre. Pelo contrário.

Cristina Lopes procurou manter as rotinas possíveis. Os horários de trabalho, de estudo, de dormir. Sai uma vez por semana para fazer compras em locais que lhe oferecem maior segurança, quer ao nível do distanciamento, quer da higienização dos espaços. Deixou de ir onde costumava ser cliente, devido a esse critério. Se nos primeiros dias era a filha mais nova, de oito anos, a ter dificuldade em assimilar o actual contexto, embora acatasse as novas normas, mais tarde começou a ser a mais velha, de 13 anos, a manifestar estar a ser complicado “gerir ter de estar isolada dos amigos e ter uma avalanche de trabalhos” escolares para fazer. Já saíram à rua, mas para locais isolados, sem ninguém por perto, e com recomendações específicas, nomeadamente evitar tocar em objectos. Deixou de visitar a família e o pai, doente oncológico. Esses contactos passaram a ser feitos exclusivamente por telefone e videochamada.

Em período de férias escolares, o terceiro período é motivo de apreensão, por considerar que “ninguém estava preparado para esta situação” e por não acreditar que as novas tecnologias venham a dar resposta às necessidades. “Não antevejo uma solução que seja verdadeiramente viável num tão curto espaço de tempo, por melhores que sejam os trabalhos que os professores enviem”, projecta. Por outro lado, sem o acompanhamento do professor, as crianças “vão procurar esse apoio junto dos pais, que também estão a trabalhar” e fazer tudo em simultâneo “não é de maneira nenhuma fácil”. Uma opção semelhante à antiga telescola parece a Cristina Lopes um cenário “mais justo e equilibrado do que a utilização das novas tecnologias”, por nem todas as crianças disporem dos mesmos recursos.

Para Cristina Lopes, em teletrabalho e a cuidar de duas filhas em idade escolar, mais tempo em casa tem sido sinónimo de menos tempo livre.

 

Yoga para atenuar as preocupações

Maria Isidoro, 35 anos, é responsável, a tempo parcial, pelas actividades de animação e apoio à família na Escola da Barroca Grande, localidade onde mora. Desde que os estabelecimentos de ensino fecharam, dia 16, está em casa.

Reside no Bairro dos Engenheiros e o movimento a que assiste é o normal na troca de turno nas Minas da Panasqueira. Não saiu para nada, nem para visitar os pais, que via diariamente, nem os sobrinhos, que lhe sentem a falta e com quem conversa por videochamada. A trabalhar, é o namorado quem faz as compras. Maria decidiu cumprir à risca as recomendações da Direcção-Geral da Saúde por entender que todos devemos ser agentes de saúde pública e evitar a disseminação do vírus.

Na terceira semana confinada “entre quatro paredes”, Maria Isidoro tem trocado os passeios de mota, as aulas de equitação, as brincadeiras com crianças e a companhia dos idosos do lar “pela vida da casa”. Com tempo livre, procura refúgio no seu principal passatempo: o yoga. Pratica e isso ajuda-a a tranquilizar, mas tem também aproveitado os seus conhecimentos na área para, via redes sociais, fazer directos com sugestões de aulas e ler histórias para crianças através da página “Yoga Para Todos”.

“Agora, mais do que nunca, as pessoas precisam trabalhar o corpo e a mente. Eu tento que entre em casa das famílias algo de bom, não só o mau. O yoga ajuda as pessoas as focarem-se também nelas e a não pensarem só no vírus”, frisa a instrutora.

A incerteza e o medo de uma ameaça desconhecida provocam ansiedade. Maria Isidoro, também animadora de festas, quer acreditar que o seu tempo livre pode ajudar os outros de alguma forma.

“Estas sessões fazem-me sentir bem e espero que também aos outros, porque o yoga alivia a tensão, ajuda-nos a abstrair do que acontece lá fora. A respiração correcta pode deixar-nos mais tranquilos, ajuda a acalmar”, salienta.

Prestadora de serviços, o futuro é uma incógnita. “Até ver”, tem o salário assegurado, mas não sabe até quando. Não acredita que haja condições para as escolas reabrirem no terceiro período e isso gera inquietação. “Há uma preocupação e conto com o yoga para ajudar a lidar com a situação”, vinca.

População mais velha sente a falta das conversas na rua, estranha as ruas vazias, garante tomar precauções e não temer o vírus, apesar da idade.

 

 “Deixou de haver a conversa na rua”

Os dias passaram a ser diferentes para Lídia Baptista, 86 anos, desde que a pandemia obrigou a população a resguardar-se. Deixou de ter a casa cheia. As conversas na rua escasseiam. Quando, ao final do dia, vê o noticiário, enerva-se com o que vê e ouve.

A professora aposentada vive com uma filha, que trata das compras. O centro de dia passou a levar-lhe o almoço a casa. Tem o supermercado à porta, caso precise, mas o café, onde as pessoas entravam e saiam, está de portas fechadas e isso diminuiu o movimento.

Deixou de ir às aulas de ginástica na Junta de Freguesia de Vale Formoso, à cabeleireira, o habitual passeio passou a estar condicionado pela presença de terceiros na rua. Os outros três filhos, tal como os netos e bisnetos, continua a ver. Uns passam diariamente à sua porta, para saber se está tudo bem e do que precisa. Com outros fala por telefone.

“Deixou foi de haver a conversa na rua. Vamos pôr o lixo no contentor e não se vê ninguém”, conta.

São dias mais aborrecidos para Lídia Baptista, de Vale Formoso, mas a antiga professora garante ter muito com que se entreter. Lê a bíblia e Eça de Queirós nas tardes de sol, na marquise. Hoje, com água e vinagre, fez uma limpeza geral na sala de jantar. “Custa um bocado estar em casa, mas ocupo-me bastante”, frisa.

O novo coronavírus tem sido letal sobretudo entre a população mais velha. Lídia Baptista, de 86 anos, garante não ter medo nem se pôr a pensar “nessas coisas”. “Enervo-me de ver tanta coisa horrível, mas não me assusta. Não tenho medo. Fico é preocupada, não só comigo, também com os outros”, sublinha, acrescentando que lhe resta tomar precauções e lavar constantemente as mãos.

“Antigamente era a guerra que matava tanta gente”

“Antes desta coisa que anda para aí”, Augusto Oliveira, 89 anos, do Peso, distraía-se com umas idas ao café, uns passeios na rua e dois dedos de conversa com quem encontrava nos espaços de convívio, entretanto fechados. “Agora é como se a gente estivesse numa prisão. Custa um bocadito, mas temos de aguentar, a gente tem de cumprir o que dizem”, acentua o antigo operário, que aos sete anos ficou sem pai e aos dez começou “numa roda a encher canelas”, antes de, mais tarde, rumar à construção de túneis, em França.

Augusto Oliveira, quase a completar 90 anos, tem estado atento aos conselhos que ouve na televisão. “Não sair, lavar as mãos e desinfectar”, sintetiza. Vive com um dos filhos, que se encontra em teletrabalho. Os outros dois costuma vê-los “quase todos os dias”. Admite ter receio do vírus, “mas se tiver de vir”, diz, sem completar a frase. “Antigamente era a guerra que matava tanta gente, agora nem é preciso uma guerra”, compara.

 

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