Entre o ódio e a esperança

Corremos sem pensar para onde nos dirigimos, não querendo ficar para trás sem saber onde fica a frente
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A.J. Pinto Pires

Frei Bento Domingos em crónica recente sobre os conturbados tempos que mais uma vez vamos atravessando, o qual classifica como uma era de extremismos, à esquerda e à direita, reafirma a tentação de responder ao ódio com mais ódio, alertando para que os caminhos da justiça e da paz, devam, no seu entender, pautar-se por outros valores.

Bento Domingos, amigo e pessoa que conheço e admiro há muitas décadas de lutas antigas, as quais remontam ao caso da capela do Rato em 1972, tem-se pautado pela sua incansável saga em defesa dos valores da vida e provavelmente da simplicidade com que a mesma deveria ser encarada.

Ou seja, não esconde a sua indignação pelos comportamentos xenófobos de Donald Trump secundado pelo influente movimento evangélico integrista, para a defesa de uma política belicista, antiecológica, patriarcal e sexista que os ultraconservadores da igreja católica, como o cardeal Timothy Dolan, arcebispo de Nova Iorque, acabam por secundar.

Gonçalo Cadilhe, viajante e escritor, no seu mais recente livro, “Por Este Reino Acima”, e a propósito do nosso país, e do mundo, e dos comportamentos humanos, para caracterizar o processo em curso como uma metamorfose global, como nunca antes se tinha verificado na história da humanidade, nem sequer aquando da descoberta do fogo ou da invenção do automóvel.

Corremos sem pensar para onde nos dirigimos, não querendo ficar para trás sem saber onde fica a frente, porém agitando-nos como quais nevróticos com a quantidade de solicitações, mensagens, informação urgente mas inútil, notificações de mensagens à espera de tempo para serem lidas para em seguida se concluir que tudo nos rouba tempo. Essa grande metamorfose do tempo que atravessamos é a perda de controlo sobre o nosso espaço pessoal. Dia e noite algemados ao telemóvel, conectados com o mundo, online com a realidade global, esquecendo-nos de cultivar a relação lenta e serena com nós próprios. E com os outros…

Este incansável viajante do país e do mundo elenca uma quantidade de “menos”, que nos dominam a ter em conta, tais como: quantidade de informação, disponibilidade para sermos contactados, sinal e gigas por segundo, ecrã, sofá, aquecimento global, ginásio, livros de auto-ajuda, tendências da moda e/ou rotinas urbanas.

Para “mais”, alerta: horas offline, nortada e ar livre, atividade física, leveza espiritual, cores de Outono e Primavera, silêncio e caminhadas pelos bosques de Portugal.

Retomando B. Domingos, e citando o Papa Francisco, é o caminho da mundialização da guerra. Acrescento, um dos caminhos, apesar de outros bem ou tão mais perigosos.

É óbvio que são outros os caminhos da política, da justiça e da paz. Mantendo o processo da metamorfose ao contrário, como alguém terá dito há muitos anos atrás, “sigo caminho para me aproximar da minha essência”.

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