Editorial

0
203

Estranho observar como a nossa água, que nasce nas serras, nos é cobrada de forma tão prodigiosa

Diz-se popularmente, pelos nossos meios mais rurais, que quem beber da água de determinada fonte ali irá casar. Lembrei-me deste adágio que faz viva a força das águas para refletir sobre dois fenómenos completamente antagónicos que marcam a edição do NC desta semana. Sim, fenómenos! Porque é realmente espantoso que haja um crescente número de pessoas que abandonem a vida urbana, massificada e marcada pelo stress (ainda que beneficiada pelo acesso fácil a bens e serviços) e optem pelo sossego e paz da nossa interioridade; mas também porque é deveras “estranho” que as Águas de Portugal venham agora reclamar uma divida de 110 milhões de euros aos dezasseis municípios do Interior, que eram membros da extinta Águas do Zêzere e Côa, relativa a dívidas antigas, de faturas que estes se recusaram a pagar, em protesto pelos seus valores exorbitantes.

Não nos cabe encontrar razões legais para esta decisão do Ministério do Ambiente, mas não nos pode passar ao lado a estranheza que é observar como a nossa água, aquela que nasce nas nossas serras, aquela que constitui dos poucos recursos que nos caracterizam, produção da natureza, ainda nos é cobrada de forma tão prodigiosa.

É no mínimo um fenómeno. Sobretudo se observado com razoabilidade e capacidade de verdadeiro discernimento. É que o valor da dívida do que é nosso, e ainda cobrado com juros, vai além da capacidade orçamental de cada um destes municípios. E, mais uma vez, à conta do poder central, que quer valorizar o Interior, ficará a ação social comprometida, o desenvolvimento e o turismo comprometidos, a saúde e a educação comprometidas, as acessibilidades e infraestruturas comprometidas, porque não são banhadas pelas águas do Litoral.

Fenómenos… comparar uma comunidade que busca a serenidade do Interior, que vem ao encontro do “el dorado” da tranquilidade e do regresso à simplicidade dos hábitos com um poder central que, de antemão, ostraciza esse espaço que quer crescer é verdadeiramente surpreendente.

Esta é só mais uma prova de que temos um país desigual e assimétrico, onde as necessidades das populações são condicionadas pelas decisões governativas. As preocupações para com este “Portugal” estão completamente invertidas: fixar a população, criar emprego, desenvolver e atrair, combater a desertificação, seriam as medidas políticas sérias e reais com que os nossos municípios se deveriam preocupar.

São os fenómenos incompreensíveis à primeira vista, mas que refletem bem a tal preocupação em fazer muito e mais pelo Interior.

Não duvido que por cá ainda não passou o “ministro” e que não bebeu das nossas fontes…

Deixe um comentário