E que fazer aos pobres?

Temos vergonha de ter pobres e queremos escondê-los com mil estratégias de acção social
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No passado domingo, o Papa Francisco almoçou com 1 500 pessoas depois a eucaristia que presidiu na Basílica de S. Pedro e onde assinalou o 3º Dia Mundial dos Pobres, por ele instituído.

Por si só o gesto parece e merece um voto de louvor e de exaltação, pelo altruísmo e humanidade do Papa, mas ele está muito além de um filantropismo único. Por detrás desta iniciativa, Francisco faz ecoar um grito ao mundo: o grito dos pobres.

Não deixa de ser desafiante pensar que esse mesmo grito surge daquele que se diz ser o estado mais rico do mundo. O chefe do Vaticano, cuja riqueza patrimonial é inegável, e ao qual tantos acusam de ostentação e luxo, é o primeiro a fazer ouvira voz de tantos “milhões de homens, mulheres, jovens e crianças”, sujeitos a condições de vida cada vez mais precárias e longe da dignidade que todos merecem.

Desde o início do seu pontificado que Francisco assumiu como grande desejo “governativo” para a Igreja que lidera a proximidade para com os mais pobres e desprezados, a Igreja das periferias, a “igreja pobre e para os pobres”. E, uma vez mais, assume esse desejo na mensagem dirigida aos cristãos que marcou este dia mundial: “Ao aproximar-se dos pobres, a Igreja descobre que é um povo (…) que tem a vocação de fazer com que ninguém se sinta estrangeiro nem excluído, porque a todos envolve num caminho comum de salvação. (…) Somos chamados a tocar a sua carne para nos comprometermos em primeira pessoa num serviço que é autêntica evangelização. A promoção, mesmo social, dos pobres não é um compromisso extrínseco ao anúncio do Evangelho; pelo contrário, manifesta o realismo da fé cristã e a sua validade histórica.”

Este desafio de olhar a pobreza, com os mesmos olhos com que Jesus Cristo olhou cada homem e mulher sofredor no seu tempo, é das exigências maiores para a igreja deste tempo. A figura do pobre sempre assumiu lugar na escala social. Tempos houve, o sabemos, que os mais pobres foram tomados como “escravos” e tratados como tal. Hoje e como diz Francisco “há novas formas de escravidão”, elencando- as entre as “famílias obrigadas a deixar a sua terra à procura de formas de subsistência noutro lugar; órfãos que perderam os pais ou foram violentamente separados deles para uma exploração brutal; jovens em busca duma realização profissional (…); vítimas de tantas formas de violência, desde a prostituição à droga, e humilhadas no seu íntimo (…),migrantes vítimas de tantos interesses oculto (…) pessoas sem abrigo e marginalizadas que vagueiam pelas estradas das nossas cidades”.

Esta é uma esfera social que cada vez menos queremos admitir. Num tempo em que só buscamos o belo e simpático da realidade social, Francisco faz a denúncia mais dura que já se lhe ouviu: “aos pobres, frequentemente considerados parasitas da sociedade, não se lhes perdoa sequer a sua pobreza”.

Temos vergonha de ter pobres e queremos escondê-los com mil estratégias de acção social. Gastamos nelas muitas energias e não investimos o suficiente para que a sua reabilitação e integração social nasça do acolhimento de cada um como ele é, apontando-lhe e abrindo-lhe caminhos que o conduzam àquilo que ele pode vir a ser.

Fica em aberto a questão: aos pobres, que lhes devemos fazer?

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