Defesa serrano virou estafeta no duelo com a pandemia

Joel Vital, subcapitão do Sporting da Covilhã, investiu num restaurante poucos dias antes de a covid-19 o obrigar a fechar
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Um dos prazeres de Joel Vital, jogador do Sporting da Covilhã, é comer. Aos 16 anos saiu de casa, para os juniores do Benfica. Aos 18, no Açores, fartou-se da ementa repetitiva do sítio onde fazia as refeições e passou a ligar à mãe, para lhe explicar por telefone como se cozinhava. Foi uma nova paixão que nasceu e o comando da cozinha em casa passou a ser seu. Há dois anos que o subcapitão serrano pensava abrir um restaurante. O G.TREZE foi inaugurado no final de Fevereiro. Sem o imaginar, na pior altura possível, três semanas antes de a covid-19 o obrigar a fechar.

O espaço aberto na Alameda Europa, na Covilhã, foi um processo maturado e a que o central, de 32 anos, se dedicou desde Setembro. Uma forma de começar a preparar o futuro quando deixar de jogar, ainda que pense em fazê-lo por mais uns quatro anos, e também fruto do seu gosto pela área. Não contava, logo após o apito inicial, ter de lidar com um adversário invisível mais matreiro do que os avançados talentosos que tem como missão travar.

Teve de ser pragmático. Sacudir a pressão e tentar sair a jogar. Sem as circunstâncias permitirem uma acção tão vertical e objectiva, optou por uma estratégia mais paciente. Parar é que não era uma possibilidade, depois de um investimento a rondar os 70 mil euros, um projecto montado de raiz, sem acesso a medidas de apoio e com o salário para pagar aos empregados.

“Fomos dos primeiros na Covilhã a adaptar-nos ao ´take-away`”, salienta, ao NC, o defesa serrano, que também apostou na entrega de refeições ao domicílio. Com a II Liga suspensa, apesar do plano de treinos a cumprir, tinha mais tempo e, para não ter de contratar mais gente em tempos de incerteza, começou ele próprio a fazer as entregas, no carro particular.

O central do Sporting da Covilhã investiu, com o amigo e chef Gerson Oliveira, no GTREZE, três semanas antes de a covid-19 obrigar ao encerramento.

 

Clientes surpreendidos

O equipamento de protecção individual não impede ser reconhecido, embora muitas das encomendas sejam de gente conhecida e já saibam com o que contam. Ainda assim, tem sido motivo de surpresa depois de ter “chutado a bola para a frente” quando se viu pressionado pela pandemia.

“Algumas pessoas ficam surpreendidas por me verem a mim a entregar as refeições. Há dias um senhor perguntou-me se já deixei o futebol e expliquei-lhe que é uma situação temporária”, conta, a rir.

Numa outra ocasião, em que foi fazer uma entrega a um aniversário, foi surpreendido com a marcha do Sporting da Covilhã. “Fui recebido, numa entrega, ao som do hino do Sporting da Covilhã. O vizinho da senhora tinha uma coluna virada para a rua e pôs a tocar quando eu cheguei”, recorda o central, sentado numa das cadeiras aveludadas do restaurante de gama média-alta, que durante este período teve de reestruturar totalmente a ementa.

Na sua inesperada função de estafeta, também já fez entregas a colegas de equipa e ao presidente do Sporting da Covilhã. “Já fui servir o presidente e vários colegas de equipa”, sublinha o subcapitão serrano, natural do Porto e há sete temporadas a representar os “leões da serra”.

Joel, que continua o plano de treinos, já fez entregas em casa do presidente do clube e também de colegas de equipa.

 

De rosto do restaurante a faz-tudo

O G.TREZE nasceu da parceria com o sócio e chef Gerson Oliveira, com experiência em espaços com estrela Michelin e a namorada a estudar na Covilhã. O nome resulta do número que Joel sempre ostentou nas costas e na inicial do nome do amigo.

Com os treinos e jogos, contava, nesta fase, ser sobretudo o relações-públicas do espaço. Estar presente às refeições, conversar com os clientes. Deu por si a ter um papel bem activo, no meio de um curso intensivo de restauração e gestão.

Vai às compras de manhã, negoceia com fornecedores e também ajuda na cozinha quando é preciso e onde percebeu que não é a mesma coisa que cozinhar em casa. A pressão e o stress, como em campo, também são uma realidade na cozinha.

O principal receio foram os compromissos para com os empregados, pessoas com família e obrigações. Recorrer a um empréstimo não fazia parte da equação. Quando desviaram as mesas e montaram à entrada uma bancada com o gel desinfectante em cima, para quem fosse buscar comida, notaram os clientes retraídos. “No início notava o receio dos clientes, começaram a ganhar confiança e agora já dá para pagar as despesas”, desabafa.

“Não podíamos deixar cair o negócio”

“Somos tão novos, gastámos aqui tanto dinheiro, fiquei muito preocupado, mas não podíamos deixar cair o negócio”, acentua o defesa central, que há duas épocas já tinha sentido a adversidade, quando fez uma rutura do ligamento cruzado anterior e esteve sete meses a recuperar e um ano sem jogar.

Com mais um ano de contrato com os “leões da serra”, a sentir “saudades do relvado” e sem saber quando começa o campeonato, vai continuar a treinar todas as tardes, entre as 15h e as 18h, e a pensar no regresso, tal como a esposa, a trabalhar num centro de saúde e também médica no Sporting da Covilhã.

Para já, vão tentar recuperar a normalidade possível e voltar à carta do restaurante. A sala reabriu na última segunda-feira, 18, com capacidade para apenas 12 a 14 pessoas e um menu de degustação que é “uma viagem gastronómica”. As entregas ao domicílio e a venda de refeições para fora vão continuar.

Enquanto o campeonato não começa, Joel Vital vai continuar dedicado à restauração, enquanto lamenta a forma como os dois escalões do futebol profissional foram tratados de forma diferente e diz ficar com a sensação de que o grupo “poderia ter feito muito mais” do que o 11.º lugar.

Na próxima temporada espera que os serranos “cheguem a outro patamar” e, pessoalmente, tem a ambição de somar mais jogos.

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