As luzes intermitentes

Conhecermo-nos enquanto as luzes estão acesas é fácil
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Terminado mais um ano litúrgico, começa a preparação de mais um Natal, que recorda a vinda de Jesus Cristo à matéria humana e aponta para a sua vinda definitiva. É mais um Advento que prega o sentido real da esperança, que anuncia motivos de uma vigilância permanente e devolve alegria a tantos dos que andam em busca de sentido para a vida. Ou serão apenas as luzes que agora brilham um intermitência entre o desejo e a realidade?

Este é um dos perigos do nosso agora: deixarmo-nos inundar por uma luz intermitente, como estas que adornam as ruas e enfeitam o Natal de tantas coisas que ele não é. A nossa humanidade corre este risco de se mascarar de alegria e bem-estar e “ao piscar das luzes” dar-se conta das trevas que inundam a existência humana.

Pode soar a apologético ou demagógico o discurso do individualismo, do materialismo e consumismo que marcam a geração actual. Pode parecer já ultrapassada a condenação dos seus malefícios e desvantagens diante dos valores verdadeiros que pautam a escala da convivência social, além da proposta cristã.

E é por isso, que na reflexão do que somos e do que desejamos vir a ser, temos de nos observar nos espaços entre as luzes e as sombras, para nos reconhecermos como homens e mulheres em cada circunstância.

Conhecermo-nos enquanto as luzes estão acesas é fácil: brilha o melhor de cada um de nós, ilumina-se a vida e aquilo que de bom ela tem e dá-se vida ao que parecia tenebroso e escuro. Mas é nas trevas que está muito de nós. É na escuridão que se revelam entranhas humanas que envergonham e denigrem o ser, mas que também são parte de cada pessoa.

Além daquilo que vivemos e somos, entre as luzes e as sombras, há o desejo do que haveremos de ser. É nesse espaço que está o valor da intermitência; é entre um acender e apagar da nossa luz que está o que todos vislumbramos como aquilo que desejaríamos alcançar.

Hoje porém, a efemeridade dos gestos e superficialidade dos hábitos levam-nos a viver nesta constante tensão que não nos deixa paz.

O tempo de Advento, que a Igreja nos propõe, e que de algum modo até as montras comerciais nos apontam, é um tempo de preparação de nós mesmos, um tempo para observar as nossas trevas e o nosso desejo de luz. Mas se nos deixarmos influenciar pelo tal “espírito consumista” cada vez mais notório, mais uma vez iremos disfarçar o Natal de algo que ele não é e depois, lá virá mais um tempo de desilusão porque nos iludiu o desejo.

Entre as grandes campanhas contra o desperdício alimentar, as crescentes políticas de defesa ambiental, o apelo ao consumo moderado e o desejo de que todos tenham pão, está o nosso Natal. E com ele vem a pergunta: será mais este Natal uma intermitência entre o que somos ou o disfarce daquilo que desejamos ser?

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