As coisas que ficam por dizer

Os 59 anos do seu sacerdócio demonstram um grande amor à Igreja e a esta Covilhã
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Na vida, muitas são as vezes e os dias em que temos a sensação de que algo ficou por dizer. Acentua-se muito mais esta sensação quando nos referimos àquele momento de uma despedida eterna, de alguém com quem convivemos e ou amámos.

Mas o que fica por dizer não é apenas o que nos poderia ter saído dos nossos lábios. O que fica por dizer é também o que o silêncio de quem parte não nos deixa saber à luz clara das palavras, mas que se vai espelhando no estar, no conviver, no ser.

Creio que o padre Agostinho do Nascimento Rafael, que esta semana nos deixou e deixou a Covilhã mais pobre, é uma dessas pessoas cujo silêncio das palavras deixou muito por nos dizer, para o podermos conhecer melhor.

De jeito simples, sorriso aberto e discrição permanente, este é um dos homens da viragem de uma igreja tridentina para a tão desejada instituição pelo Concílio Vaticano II.

O grande concílio que haveria de mudar o rumo da Igreja, ou pelo menos assim se esperava, foi acompanhado com grande curiosidade e ansioso interesse por parte do padre Rafael, que buscava em todos meios forma de saber o que se ia passando em Roma.

No Seminário, onde então era formador e professor, era uma das vozes da novidade que tanto se desejava e esperava. Mas talvez não tivesse sido bem interpretado por isso. Guardava-o para si e lá o deixava soltar nas conversas que lembravam o passado e traziam à memória o desejo de uma eclesiologia diferente daquela que ainda vamos realizando.

Expressou os seus silêncios na música que compôs e harmonizou. Não inventou poemas nem palavras. Buscou sempre nas palavras bíblicas, nos salmos, a sua forma de expressão e com isso deixava transparecer o desejo de Deus que lhe marcava a alma.

Não se detinha em conversas fúteis e nem se dedicava a falar só por falar. Falava na hora certa e porque em muito acertava no que dizia às vezes, uma e outra vez, terá sido mal entendido. Mas é assim que acontece a quem não diz tudo. Sempre corre o risco de ser mal entendido porque prefere não se fazer entender e deixar espaço a um outro entendimento.

Também se diz que quando morrem, todos passamos a boas pessoas. Dizemos muitas coisas e procuramos “justificar” com palavras o que não fomos dizendo nos convívios que realizámos. Não é disso que se trata quando falo do padre Rafael. Trata-se sim de “ver para além do olhar” e observar a figura de um sacerdócio que muitas vezes não se compreende.

Os silêncios de um padre muito falam e dele dizem muito. Escondem amarguras e tristezas, desânimos e dores de quem sofre. Os silêncios de um padre são normalmente resultado de feridas provocadas pela escuta dos outros, são dores de uma igreja também doente e de uma impotência de muitas vezes nada se poder fazer.

Arrisco-me a dizer que o padre Rafael também levou consigo estas cicatrizes, enquanto as curava no altar da Eucaristia que tanto amou e exaltou, seja pela música, seja pela esperança que demonstrava no “Deus Santo”, como a Ele se referia frequentemente.

Agora fica a sua história por contar, mas os 59 anos do seu sacerdócio demonstram um grande amor à Igreja e a esta Covilhã, na qual, em silêncio foi o padre da vida de muitos dos seus cidadãos.

A liturgia do céu está mais rica. A Covilhã não tem palavras para lhe agradecer as quatro décadas em que a serviu.

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