Aprender a ser cidadão

A educação não pode obedecer a nenhuma outra ideologia senão o do crescimento saudável dos cidadãos
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O regresso às aulas é sempre um tempo de entusiasmo misturado com alguma nostalgia. O entusiasmo pelo reencontro, pelo novo, pelo desafio e a nostalgia de um verão terminado e o peso de uma obrigatoriedade disciplinar, que às vezes se torna “peso” para todos: pais, filhos, professores e educadores.

Este ano, em que tudo é diferente, o desafio da novidade é tanto maior. As inúmeras regras de segurança e saúde pública parecem ser o centro de todas as atenções e preocupações, mais do que o novo estojo ou o cheque que ajuda a essa grande despesa dos livros e material escolar.

A pandemia provocada pelo covid-19 está a tornar-se a referência e o tema de conversa quando do regresso às aulas se trata. O desafio de um calçado extra, a máscara, as salas de aula “descaracterizadas” pelo distanciamento, as regras no bar e no refeitório, tudo constitui um desafio para quem tem na escola o seu lugar de trabalho, seja a educar seja a ensinar ou a aprender.

Mas no meio de tudo isto, temas como o descontentamento dos professores ou mesmo as colocações, a falta de recursos e temas da ordem do dia no que à educação se refere. Certo é que o tema das aulas de cidadania, polémico o suficiente para alguns, não tem sido motivo de grandes atenções, apesar de algumas discussões doutrinais e ideológicas que caracterizam o assunto.

Todos temos noção de que não pode haver uma neutralidade completa na educação, porque nenhum modo de educar é neutro, porque nada do que é humano pode assumir esse carácter.

Educar, segundo a etimologia da palavra, significa ajudar o ser humano a crescer nas muitas dimensões que o caracterizam, desde a alimentação, ao testemunho de comportamentos de respeito pelo outro, passando, obviamente, pela transmissão de conhecimentos que ajudem a pensar criticamente.

Por isso, a disciplina de cidadania, no tempo actual e talvez mais do que nunca, poderá ser uma oportunidade de crescimento, de despertar para direitos e deveres cívicos, morais e culturais, que parecem estar em défice.

O incorreto na introdução desta nova área do saber nas escolas, “nova polémica” para muitos, estará na forma como se abordarão os temas que aí se colocam como programa curricular.

Pelo que do ensino conheço e por ter visto um pouco do programa de Cidadania, creio que todas as outras disciplinas, como o Português, Matemática, Geografia, Filosofia, História, Biologia, Química, Artes, Educação Física, trabalham a Cidadania.

Ainda assim, e sendo “ideologia” a palavra de ordem, quando de consciências e sua formação se trata, não podemos esquecer o conceito de uma sociedade plural.

E numa sociedade onde as diversas formas de pensar e interpretar as realidades são um dado, há um paradigma importantíssimo que é necessário respeitar: não impor. Sim, digo impor, porque hoje, os novos padrões da forma de se estar e ser em sociedade parecem ter de se caracterizar por uma “modernidade” liberal, que muitas vezes quer mais chocar com o tradicional do que ajudar ao desenvolvimento da pessoa.

A educação não pode obedecer a nenhuma outra ideologia senão o do crescimento saudável dos cidadãos respeitando a pluralidade das suas crenças, da sua opção política, alimentar ou cultural.

Fica o grande desafio para os educadores, que formam os futuros cidadãos: educar não é endoutrinar ou formatar, mas sim formar. E isso significa ajudar a formar uma consciência livre, mas fundada sobre algo que seja sólido, verdadeiro e justo!

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