Algo novo debaixo do céu

O aparente desinteresse eleitoral tem de ser levado a sério
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Acordámos todos com as notícias mais prováveis e quase certas: “nada de novo debaixo do céu”! Os resultados das legislativas do domingo passado levaram-nos a recuperar aquele nosso espírito de uma certa acomodação quanto aos resultados. Não sabemos se o país está transformado ou se tudo permanece na mesma.

O governo em funções mostrou-se vencedor e lá vai continuar o caminho até aqui traçado. Aquele caminho de que tantos se queixaram, mas que afinal parece ser o viável, ou então o caminho dos que não querem andar, porque, ao olhar para o volumoso número dos que se abstiveram neste ato eleitoral, parece que há muitos que não querem mesmo caminhar.

A recusa que se manifesta neste não querer fazer caminho, parece-me, é a maior dificuldade na constituição de um governo de todos e para todos. Foram mais de quatro milhões de pessoas as que não participaram no ato eleitoral. Como não nos preocuparmos?!

Surgiram novos movimentos de cidadania e novos partidos com o objetivo de combater a abstenção. Seria sua principal intenção alargar a mesa do poder político, para que a bola não saltitasse apenas entre a direita e a esquerda.

Surgiu o desejo de uma “nova política”, mas, ao observar aqueles quatro milhões, não alcançou os que a reclamam.

Certo é que a força da esquerda se reafirmou no poder governativo, deixando na sombra os partidos mais à direita, se correta for esta designação. E o que se faz novo debaixo do céu é a afirmação dos chamados “pequenos partidos”, que fazem mudar as cadeiras do Parlamento, e soma nove novas “caras”, três delas pela primeira vez.

O Papa Francisco, por outras palavras, faz-nos chegar a certeza de que “como a fé, também a democracia se transmite, não com proselitismo, mas pelo testemunho que fascina e atrai”.

E aí é que parece estar a questão: o aparente desinteresse eleitoral tem de ser levado a sério. Quem governa, com maior ou menor expressão, quem é oposição ou quem está na frente dos destinos da nação tem de identificar as causas e motivações deste “desrespeito” para com um direito que tanto custou a alcançar. É manifesto o descrédito dos que fazem a política cair nestas “ruas de amargura” que em nada dignificam quem as percorre.

A corrupção, os interesses pessoais e a falta de transparência nas decisões sociais e financeiras, os cortes, os impostos, as políticas sociais e uma certa arrogância governativa, não cativam nem seduzem quem vota.

A reflexão e preocupação para com a abstenção e para com os indiferentes ou desinteressados podem ser o primeiro grande testemunho governativo, porque Portugal merece e precisa que todos contribuam para a sua estabilidade, para o seu futuro e para o bem comum.

Talvez estes resultados eleitorais, tão dispersos e heterogéneos se pudessem assemelhar a uma torre de Babel, que nos lançam numa certa confusão. A “bipolaridade” entre esquerda e direita pode ser regulada por esta nova presença parlamentar? Esperemos pelo testemunho dos eleitos, para ver se haverá “algo de novo debaixo do céu”.

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