A vida para além do agora

A morte deve ser vista como esse momento em que se “julga” a vida
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Os primeiros dias de Novembro marcam o calendário da tradição cristã pela comemoração da vida de quem já partiu. E numa expressão devocional tradicional, a morte assume como que uma maior importância diante do mistério da vida. Confundimos facilmente o dia que celebra “todos os santos”, com o dia de ir ao cemitério. Carregamos as sepulturas, que guardam a morte e a cinza, com flores e velas que são sinal de saudade e nostalgia, às vezes como que se nelas não houvesse lugar para a esperança.

Estamos algo confundidos nas memórias que fazemos. E é preciso redescobrir o seu sentido!

Para além de todo ensinamento moral, de toda a conduta social e de nos ajudar a percebermos quem somos, aqui e agora, qualquer religião tem, em si mesma, a obrigatoriedade de conduzir para o transcendente e para a oferta que daí advém, independentemente da forma como ela se expressa.

A questão da morte é por isso transversal a todos os credos e religiões, que ajudam o homem a enfrentar inquietações para as quais a ciência não tem respostas ou para as quais as repostas científicas não são suficientes. A morte é a maior de todas elas!

No cristianismo é exactamente esse o ideal que se busca, quando se aceita a proposta de Jesus Cristo e se procura alcançar a ressurreição, inaugurada e prometida, por Ele mesmo, para os que acreditam. Toda a religião cristã é uma religião de vida, de busca da vida e de procura do seu sentido, até que se chegue ao sentido último da existência.

O fundamento da fé na ressurreição encontra- se no facto de Deus ter ressuscitado seu Filho, Jesus. Morrer e ressuscitar significam chegar a uma ampliação plena da cognição, de tal maneira que, só na morte, a pessoa tenha a possibilidade de conhecer, com clareza total e absoluta, o significado e as consequências de sua vida vivida, no nível individual, socio estrutural, histórico e cósmico.

Por isso, a morte deve ser vista como esse momento em que se “julga” a vida, diante da beleza e grandeza de um Deus justo e fiel, que nos coloca diante dos olhos a nossa trajetória, e compreendendo-a à luz do que Ele mesmo esperaria de nós, receberemos o prémio da ressurreição.

Este encontro parece assustar-nos e por isso, civilizacionalmente estamos a criar uma ideia da morte como um fim eterno e sem resolução. Falamos dela como se nada mais para além dela nos devolvesse qualquer esperança. Fazemos falsos lutos que nos iludem, porque não podemos ser “fracos” e mostrar a fragilidade das lágrimas.

Não apenas na doutrina, mas sobretudo na fé recebida, não é a morte quem mais conta, mas sim a vida, que está para além do aqui e agora em que este nosso tempo nos quer encerrar. Se assim fosse, seria muito pouco! Fica-nos o desafio para superarmos este aqui e agora, para além da eternidade!

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