A vida depois do hospital

Quando alguém lá de casa tem cancro, todos têm cancro
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A experiência hospitalar é sem dúvida uma das que marcam a vida de quem por lá passa, de quem ali se dá e muitas vezes se consome… Passar pelo hospital, lugar de dor e sofrimento, também lugar de vida e de muita esperança, transmitida por técnicos, enfermeiros ou médicos e em grande número das vezes pelos auxiliares da acção médica, marca toda a vida, muda a vida, sobretudo depois do cancro.

Nos últimos tempos as notícias sobre o mau funcionamento do SNS têm sido recorrentes. A memória não apaga as recentes greves de médicos e enfermeiros, nem tão pouco as discussões entre serviços públicos e privados. Por isso, esta edição do NC foi ao encontro de um grupo de resistentes, de lutadoras, no feminino, que diariamente se dedicam a testemunhar que há mais hospital para além das “questões mediáticas” e, mais importante que isso, testemunhas de que “nós também matamos o cancro”.

O cancro é uma experiência marcante na vida de doentes, familiares e amigos. Quando alguém lá de casa tem cancro, todos têm cancro. A palavra é suficientemente forte e pesada para ser repetida muitas vezes. O seu impacto ao ouvido é demasiado doloroso e quase ninguém a quer pronunciar.

O choque do diagnóstico altera toda a vida. As limitações associadas aos tratamentos e a incerteza quanto ao futuro, contribuem para que nasçam a tristeza a solidão ou a angústia. No entanto, e se é de vida que devemos falar, nada há como valorizar o testemunho de quem luta pela vida, de quem está ao lado dos que têm medos e anseios e procura minimizar a dor.

São muitos estes testemunhos. A quem já foi diagnosticada uma doença oncológica ou que acompanhou de perto esta experiência não faltam “estórias” para contar, umas mais felizes outras com um final mais delicado, mas, com certeza, todas elas narrativas de coragem.

O paradigma na forma de tratar e cuidar as doenças oncológicas tem vindo a mudar, nos últimos tempos. Nunca se deve descurar, ainda assim, a necessária humanização do hospital e a presença dos testemunhos vivos que manifestam a tão necessária solidariedade, marca mais identificativa da nossa existência relacional.

Não se coloque de lado, em toda esta questão, a realidade da fé, que a par da ciência, ajuda à experiencia oncológica. João Paulo II, em 1994, ao publicar a encíclica “Fides et ratio” deixava-nos uma certeza que, mais do que cristã, é genuína no diálogo entre as duas realidades, mormente vistas como antagónicas: “A fé e a razão constituem como que as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade.”

Nesta visão da fé, não apenas no sentido utilitário, que se lhe poderia atribuir, podemos perceber que a experiência do hospital marca a vida de quem por lá passa e a manifestação da solidariedade para com o doente é a expressão mais clara dessa crença no amor.

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