A semana das nossas liberdades

É o princípio economicista de retoma da vida social e financeira a colocar em causa muito dos sacrifícios realizados
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Esta está a ser a semana das nossas liberdades. Celebrar o 25 de Abril é um sinal claro do fim de uma opressão esmagadora, que há 46 anos conheceu o seu fim, ou que ainda está por cumprir, fica à consideração. É a semana de livremente recordarmos a dignidade de quem trabalha e de dar valor às reivindicações de salários justos, do fim do trabalho precário, da igualdade de direitos e oportunidades e tantas lutas que ainda estão pela frente. Ainda que a luta maior venha a seguir, como efeito desta pandemia que nos afeta, e que vem provocando já grandes consequências em tantas vidas e tantas famílias.

Esta semana é a semana das nossas liberdades. O confinamento social parece começar a baixar tréguas, um estudo revelou que houve maior movimentação nas ruas nos últimos dias, os deputados foram até às assembleias, seria absurdo se não fossem, e até as igrejas parecem estar a preparar-se para chamar os fiéis.

As liberdades, afinal, continuam a ser as mesmas, apesar, de talvez, numa nova configuração. O presidente dos Estados Unidos continua a dizer barbaridades, mesmo que em tom sarcástico, no Brasil a fé evangélica de Bolsonaro é mais forte que qualquer pandemia e por cá vamos ouvindo uns e outros a alertar para a necessidade de manter a prudência no regresso aos nossos hábitos.

Sei que livremente, dessa liberdade conquistada e que hoje valorizamos mais que nunca, todos podemos fazer o que queremos. Podemos reabrir os espaços comerciais e cuidar dos nossos cabelos, podemos ir dando tréguas ao coronavírus e dar sinais positivos de que o pior já passou, mas… não será cedo demais?

Todos precisamos de reaver a nossa sanidade mental: tomar café na pastelaria do bairro, apanhar o autocarro, ir à consulta do dentista, correr para as múltiplas solicitações que nos chamam… Todos precisamos disso, mas em nome de um bem maior, que temos vindo a alcançar, comparativamente a toda uma Europa flagelada, não aguentamos mais um pouco esta ausência de liberdade?

Mais uma vez, me parece, é o princípio economicista de retoma da vida social e financeira a colocar em causa muito dos sacrifícios realizados e dos bens obtidos. Está, de novo, a economia a sobrepor-se à humanidade que o momento exige e que temos vindo a cultivar.

O mundo não pode parar, as contas têm de ser pagas e o pão de cada dia tem estar em cima de cada mesa. Ninguém o nega. Mas na liberdade de sermos nós os construtores desta fraternidade mundial, não seria a hora das grandes nações, dos líderes europeus e mundiais darem lugar a uma nova forma de pensar a economia? Não seria a hora de nos libertarem de tantos “afogos” mensais e contratuais? Não será a hora de nos libertarmos deste paradigma financeiro, que rege as relações, para saborearmos os grandes valores da partilha e solidariedade, numa justa distribuição dos bens, dando provas da nossa fraternidade universal?

É esta a liberdade de que todos precisamos neste momento, mas ela inicia-se também na nossa conçepção de bem-estar e na reafrimação do que é verdadeiramente importante. Para que tal nos aconteça, é necessária aquela liberdade que nos desapega das coisas, da materialidade e do desejo de posse, porque, provado está, a nossa existência é bem maior do que aquilo que temos.

Será esta a hora da nossa liberdade de acção, de nos movimentarmos em favor de uma humanidade em que impere o humanismo e não em prisões de interesses que nos encerram disfarçadamente naquilo que nós somos!

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