A guerra

Temos de minimizar ao máximo a hipótese de sermos infectados, porque não é verdade que só velhinhos é que vão ficar doentes
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Assunção Vaz Patto

A vida da maioria das pessoas atinge algumas rotinas, ao fim de um certo tempo. Não estamos preparados para mudanças bruscas e levamos muito tempo a habituarmo-nos a elas. Penso que é por isso que a maioria das pessoas ainda não percebeu que estamos numa espécie de guerra, que não é na Síria, nem em África nem na China, mas em nossas casas. E que cada um de nós pode – e deve ser um herói de guerra. Desta vez, não é só com os outros.

O Covid-19 é um vírus – um bichinho microscópico que se deposita na nossa cara, mãos, objectos do dia-a-dia – e é transmitido pelo contacto entre as pessoas – principalmente pelos microperdigotos que todos lançamos (alguns não tão microscópicos assim…) pelos abraços e beijos e apertos de mão e tudo o mais.

Não é uma gripe fraca. Tem um poder de contágio muito maior do que o da gripe sazonal. Na maior parte dos casos, a infecção é ligeira ou até pode passar desapercebida. Contudo, quando atinge pessoas com muitas doenças, ou mais frágeis, pode originar uma situação chamada pneumonia intersticial – uma espécie de infecção nos pulmões que inflama células dos tecidos desse órgão de tal forma que uma pessoa não consegue respirar. Aí, precisa de estar no hospital e de estar ligada a um aparelho para a ajudar a respirar – um ventilador. Normalmente estes aparelhos são suficientes – e os doentes se não há um aparelho disponível, são levados para outros hospitais. Em Itália, neste momento não conseguem fazer isso – apesar de terem um serviço de saúde muito bom, não conseguiram ter ventiladores suficientes para o número de doentes que se tem vindo a apresentar com problemas respiratórios graves. E todos os infectados, independentemente de não terem sintomas ou de terem pneumonias graves, são agentes de transmissão do vírus.

E por isso é que isto é uma guerra: temos de minimizar ao máximo a hipótese de sermos infectados, porque não é verdade que só velhinhos é que vão ficar doentes; temos de não infectar os outros – porque precisamos uns dos outros para sobreviver e não vamos conseguir acabar com isto sozinhos. É uma daquelas situações em que os gritos da minha liberdade e dos meus direitos têm de passar mesmo pelos gritos da nossa liberdade e dos nossos direitos como um todo. Ao contrário do que se tornou moda pensar, não estamos mesmo sozinhos.

Assim é fácil:

Ponto 1: Fique em casa. Não faça vida social. Encontrar pessoas, abraçar e beijar gente e mesmo dar um aperto de mão pode ser a morte delas ou a sua. Não facilite (e pense em toda a gente horrorosa a quem já não tem de dar beijinhos! Que fixe!)

Ponto 2: Fique em casa. Trabalhe em casa. Faça um horário. Eu estou em casa quando não vejo doentes urgentes. Tenho X horas para estudar, X horas para cozinhar e para tratar da casa, x horas para as plantas. Um bocado de tempo para fazer ginástica. Quem tem Internet tem montes de treinadores a dar aulas de graça. Quem não tem ainda se deve lembrar das aulas de ginástica da escola. E quem não se lembra, usa a técnica de fazer todos os movimentos que é capaz de fazer com as pernas e com os braços. Pode dar passeios? Pode. Afastado das pessoas, sozinho e num sítio onde não encontre gente conhecida. Lembre-se: está em guerra.

Ponto 3: Fique em casa. Se tiver gripe, ou sintomas de gripe, ou febre, fique em casa. Telefone para a linha 24, para o seu Centro de Saúde, para o seu médico. Fique em casa e pense nos tratamentos de gripe da sua avó: abafe-se, abife-se e tome um vinho do Porto (só um, não são precisos dois…). Vá só ao Centro de Saúde ou ao hospital se tiver dificuldades em respirar ou uma situação que não resolva com medicação anti-inflamatória.

Ponto 4: Fique em casa. A casa vai estar desarrumada, e vai ser complicado ter os miúdos e o marido em casa. Pois vai. Estamos em guerra. As mães de família vão ser as grandes heroínas deste período. Invente coisas para os miúdos e o companheiro fazerem. Dê-lhes a noção que estão todos a ajudar. Ensine-os a cozinhar e a lavar e a arrumar a casa. E ponha-os a fazer os trabalhos e com horário controlado de TV. Veja uma receita nova e convença o pessoal de que a cozinha é um laboratório de química e que são todos cientistas. Brinque com o cão. Limpar o pó (uma seca….) é um forma de guerra contra o vírus. Lavar as mãos, muitas vezes, também.

Ponto 5. Fique em casa. Telefone aos tios, primos, amigos e veja se estão bem. Veja das amigas que já não vê há muito tempo e telefone. Pergunte pelos vizinhos que estão ao lado e deixe uma canja à porta se algum estiver doente. Mas fique em casa. E não veja as maluqueiras que se dizem na TV ou na Internet.

Ponto 6: Não bata palmas aos profissionais de saúde, eles não precisam. E todos se lembram que, há menos de duas semanas, eram muito mal vistos pela classe política e pela comunicação social. As pessoas podem ter memória curta, as classes profissionais não têm. E chegará a hora em que vamos pedir responsabilidade por decisões adiadas, por falta de investimento na saúde, má informação, por falta de testes de diagnóstico, de meios e de protecção. A hora virá, mas não é esta. Esta é a hora da guerra, é a minha hora de lutar, é a sua hora. Fique em casa. E ajude.

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