A força e o dom das mulheres

Sem a presença das mulheres as comunidades não teriam vida
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Roubei o título deste editorial ao Papa Francisco, para assinalar, com justa homenagem, o dia 8 de Março, em que “ainda” temos de celebrar o Dia Internacional da Mulher. Digo “ainda”, porque se a igualde de oportunidades e direitos fosse já um dado adquirido esta efeméride não necessitaria de ser assinalada. Porém, como ainda assim não é cumprimos o calendário como expressão deste desejo.

Mas o cumprir calendário e o associarmo-nos a esta causa de defender a igualdade de oportunidades entre homens e mulheres, não fica apenas pela simples concordância e abanar da cabeça em gesto afirmativo. É necessário dar respostas concretas às situações concretas e sobretudo renovar o nosso discurso.

Esta é uma aprendizagem que também a Igreja tem de fazer e promover. Não basta levantar a voz para condenar as formas de violência e abuso a que estão sujeitas tantas pessoas do sexo feminino. A Igreja tem de fazer da sua linguagem um “sim sim, não não”, à maneira do ensinamento de Jesus Cristo, também nesta matéria.

A questão do sacerdócio feminino, porta fechada pelo Papa S. João Paulo II na década de 80, tem sido ultimamente falada e questionada por muitos os que parecem pertencer a uma ala mais liberal da Igreja Católica. O Papa Francisco, na sua delicadeza e tacto pastoral, ainda não se pronunciou de forma directa sobre o tema. Mas, na sua última exortação apostólica “Querida Amazónia”, dedica às mulheres cinco pontos da sua reflexão (do número 99 ao 104), mostrando as “reservas” de uma Igreja prudente.

A exortação apostólica, à qual “roubei” o título deste texto, publicada há poucos dias, é resultado da reflexão do Sínodo dos Bispos, ocorrido em Roma em Outubro passado, que se debruçou sobre a presença da Igreja naquele território.

Nela Francisco reconhece que há “na Amazónia, comunidades que se mantiveram e transmitiram a fé durante longo tempo, mesmo decénios, sem que algum sacerdote passasse por lá. Isto foi possível graças à presença de mulheres fortes e generosas, que baptizaram, catequizaram, ensinaram a rezar, foram missionárias, certamente chamadas e impelidas pelo Espírito Santo. Durante séculos, as mulheres mantiveram a Igreja de pé nesses lugares com admirável dedicação e fé ardente.”

Numa atitude de reconhecimento sobre este papel do sacerdócio feminino, Francisco refere que “isto convida-nos a alargar o horizonte para evitar reduzir a nossa compreensão da Igreja a meras estruturas funcionais”. E com isto explica que se olharmos a participação dos crentes apenas num papel ministerial podemos correr o risco de só se dar “às mulheres um status e uma participação maior na Igreja se lhes fosse concedido acesso à Ordem sacra”, admitindo que isso só “diminuiria o grande valor do que elas já deram e subtilmente causaria um empobrecimento da sua contribuição indispensável”.

Explicando as raízes masculinas do sacerdócio, Francisco lembra que “as mulheres prestam à Igreja a sua contribuição segundo o modo que lhes é próprio e prolongando a força e a ternura de Maria, a Mãe”.

E admite que “numa Igreja sinodal, as mulheres, que de facto realizam um papel central nas comunidades amazónicas, deveriam poder ter acesso a funções e inclusive serviços eclesiais que não requeiram a Ordem sacra e permitam expressar melhor o seu lugar próprio”. Mas ainda não há força suficiente para reconhecer esta realidade que hoje é uma certeza e verdade nas nossas paróquias: sem a presença das mulheres as comunidades não teriam vida.

Há muito caminho por caminhar e muitos dias da mulher pela frente…

Um feliz dia às muitas mulheres anónimas e discretas que são um dom em tantas vidas.

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