A Deus

Depois de quase quatro anos seguidos a viver na “cidade-neve”, já não me é fácil acreditar em certas promessas
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Riccardo Cocchi*

Em primeiro lugar, desejo destinar as minhas mais sinceras desculpas “aos meus vinte e cinco leitores” por não lhes ter dado mais notícias. À guisa de justificação, apenas direi que, desde meados do ano passado, em paralelo ao meu infindo mestrado conimbricense, comecei a tirar um curso intensivo em paternidade.

Feita esta premissa, preciso de comunicar algo, isto é, vou sair da Covilhã junto com a minha família durante um tempo indeterminado. E, por julgar que ainda estamos em clima pós-Carnaval, espero que ninguém leve a mal. Aliás, que falta poderão fazer três pessoas simples para esta cidade que está no auge do seu desenvolvimento? Repare-se só no que vai a acontecer, nesta terra, no futuro próximo: vai abrir o Centro de Inovação Cultural; vai abrir o Centro de Inclusão Social; vai abrir o Centro de Incubação e Apoio ao Empreendedorismo; vai ser recuperada outra antiga fábrica para dar lugar a outra residência estudantil; vai tentar-se aumentar o número de estudantes da UBI – dos atuais 8.000 até chegar aos 12.000; vão ser criados, na mesma UBI, novos espaços para as áreas do design e do cinema; vão ser recuperados diversos outros edifícios em ruína no centro histórico; vai ser dada nova vida ao Parque do Goldra; vão nascer novas rotas, roteiros e percursos pedestres; vai nascer o “Centro Interpretativo das Comunidades Mineiras”; vão ser inaugurados os quatro novos miradouros na Serra da Estrela; vai ser implementado o Novo Sistema de Mobilidade nesse concelho; vão ver-se as bicicletas a transitarem pelas novas ciclovias urbanas e intercidades (trecho Covilhã-Fundão); vão ser implementados descontos para as portagens da A23; vai voltar a subir até a Guarda o comboio da Beira Baixa; e chi più ne ha, più ne metta! Em suma, posso estar a esquecer-me de alguma outra inovação fabulosa que vai brotar por aqui – mas também são tantas que deve ser complicado para qualquer um ficar ao passo de tanto progresso e tanta “civilização queirosiana”!

Entretanto, tudo isto “É p’ra amanhã…”, tal como cantava o António Variações. E não é por acaso que cito este imortal exponente da música portuguesa, dado que a sua nostálgica Adeus que me vou embora serve-me perfeitamente como pano de fundo para esta mensagem de despedida. Na verdade, posso dizer que, depois de quase quatro anos seguidos a viver na “cidade-neve”, já não me é fácil acreditar em certas promessas e – por muito que esse futuro próximo seja aclamado como altamente promissor – é esta a razão que me leva a confirmar que mais do que necessário encerrar o nosso ciclo aqui. De resto, leitores, não consideram como algo familiar e coerente o facto de alguém que nasce neste interior de Portugal, tal como a minha filha que é oriunda da Covilhã, já desde tenra idade seja obrigado a tornar-se emigrante pelos pais não lhe conseguirem proporcionar condições minimamente dignas para lhe garantir (não me atrevo sequer a dizer algo absurdo e abstrato como um futuro) nem sequer o dia-a-dia sem depender exclusivamente dos apoios de terceiros? E, por falarmos em apoios, não parece mesmo uma tolice ir-se embora agora que estão por vir as medidas de incentivo do programa “Trabalhar no Interior” do governo português?

Enfim, vamos mesmo embora, mas é para Turim – minha terra natal. Inclusive, li uma declaração recente do Cristiano Ronaldo a dizer que ficou triste por ter que disputar a lida contra o Inter de Milão sem público a assistir por causa do Covid-19. Não se preocupem, leitores e apaixonados desse desporto que tanto enobrece Portugal no mundo: levaremos connosco as últimas cherovias e, caso encontrarmos o vosso ícone, prepararemos uma boa sopa reconstituinte para ele também. Aos meus pais, que já não vejo há algum tempo, levarei a história dos bons esquecidos da Beira Baixa.

Agora, acreditem: é mesmo uma pena não podermos juntar-nos à sumptuosa festa que se prenuncia pelos 150 anos de elevação ao estatuto de cidade da Covilhã. Quem sabe se, daqui a uma década, quando se alcançar a fatídica data de Covilhã 2030 – sobre a qual, aliás, já me tinha pronunciado –, já haverá possibilidades concretas de fixarmos um ninho aqui, entre as copas volumosas das tílias perfumadas, sob as quais a minha pequena tanto se encantou…

Está resolvido. Um bem-haja do tamanho do mundo a todos aqueles que nos deram a mão durante esta íngreme travessia. E, como dizem os mais velhinhos por estas bandas, “até amanhã, se Deus quiser…”

*estudante italiano na Covilhã

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