A Alice no país das novas ilhas

O nosso Interior apresenta assimetrias a vários níveis e aguarda, ainda hoje, a descida do valor das portagens
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Explorar um tema como o do suicídio, de que esta semana tanto se falou, sobretudo nas redes sociais, é um acto sobejamente delicado e demasiado responsável. Todas as palavras são insuficientes e qualquer adjectivo é sempre inadequado, por isso me acresce a consciência de que não usarei o tema para fazer qualquer apanágio, nem tão pouco revelar frustrações deste País que vê tantos dos seus a entrar numa onda de pessimismo que parece vencer.

Refiro-me ao acto da enfermeira Alice ter posto termo à vida, segundo se diz, pela pressão que não aguentou, pelo desânimo e angústia que viveu e que se repete na vida de muitos profissionais de saúde, ou de outra área qualquer, onde as dificuldades acrescem sem dar qualquer lugar à esperança.

É de esperança que se fala e de que tanto necessitamos; de sinais positivos e de medidas concretas que abram a mente de Portugal, que é mais do que um “arquipélago” de regiões. Não se trata de falar das condições que são dadas aos seus cidadãos, mas sim das injustiças na sua distribuição, no seu acesso ao que é básico e garanta dignidade e qualidade de vida aos portugueses.

Este exemplo foi o limite de alguém que nos mostra também um Portugal muito preocupado com o PIB e a economia a decrescer ininterruptamente, mas pouco atento a um desenvolvimento assimétrico que vai criando novas ilhas em vez de maravilhas! Um Portugal onde Lisboa e o Vale do Tejo se vão exibindo pelo melhor e pelo pior, onde o Norte é referência e o resto parecem ser ilhas desertas na encosta do Litoral.

O nosso Interior apresenta assimetrias a vários níveis em relação ao Litoral, especialmente no desenvolvimento dos serviços e de outros sectores da economia. E aguarda, ainda hoje, a descida do valor das portagens, mesmo que isso fosse garantido com uma “demissão prometida” da ministra que tutela esta matéria.

Tudo parece revelar a injustiça de um desejo que não se realiza: um País de acesso a tudo o que merece e tem direito, mas cujas perspectivas futuras – diante das condições actuais – exigem definitivamente soluções pragmáticas, de fácil execução e de retorno rápido, que possam colmatar as necessidades mais prementes das zonas menos desenvolvidas do País.

A questão das portagens é uma delas. O necessário programa estruturado, de intervenção, para o desenvolvimento do Interior tem de conceber uma actuação conjunta e integrada, em todos os âmbitos de intervenção, e sem nunca esquecer as “Alices” de tantas áreas de trabalho e de acção em favor dos portugueses. As acessibilidades ao Interior são fundamentais para que a o desespero dos investidores, sejam eles com grande poder financeiro sejam de estrutura média ou pequena, possam ter resultados fruto do seu trabalho e não chegar a uma asfixia ou exaustão que nos conduza ao desespero.

Não habitamos em ilhas, mas sim num território separado por fronteiras montanhosas, por diferentes realidades culturais, mas o acesso a cada uma das nossas diferenças tem de ser uma preocupação central para quem busca o bem comum deste País.

Não nos chegam orçamentos que alimentem pequenas esperanças. Precisamos de medidas rápidas e concretas que as concretizem. Não nos podemos bastar com promessas vãs, precisamos de olhar para cada pessoa, cada situação real, para lhe darmos a resposta e a ajuda que este tempo exige.

Somos todos a precisar de todos. Não nos fechemos nas nossas dificuldades e nos nossos “umbiguismos”, que nos colocam no centro de todos os desafios. Precisamos de pontes e não fossos, que façam de Portugal o “arquipélago” dos desesperados.

 

 

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