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Um caso verde, verdinho

2019-02-27
 
 
 
Apesar de não ser nenhum “São José de Azulejos”, o Verdinho era uma autêntica casa portuguesa

 

O caso do “Café Verdinho”, que se arrastou desde o final do ano passado até esses últimos dias, representou para os covilhanenses a demonstração do facto que a locução proverbial “ano novo, vida nova” nem sempre resulta ser efetiva. Na verdade, esse “caso” foi mais uma obsessão que acompanhou por inteiro a passagem de ano dos habitantes da urbe. Isso, sem dúvida, deveu-se também à considerável quantidade de palavras (escritas ou não) que foram gastas em torno desse assunto, desde a aparição da notícia inicial (que, de imediato, se converteu em polémica) sobre a mudança de concessão do espaço até o dia da inauguração do novo local. Pois, agora, vista a aparente calmaria das águas, vou aproveitar esse momento para divulgar uma série de reflexões monocromáticas que me foram inspiradas a partir dessa questão sobre o Verdinho, que, a meu ver, acabou por semear muita cizânia – que tanto fez agitar a pacata Covilhã!

 

O verde é a cor da inveja. Foi-me ensinado que quando esse sentimento se apodera de uma pessoa, essa última, supostamente, começa a produzir um excesso de bílis, que, por ser da cor em causa, explicaria o porquê dessa ligação. Sobre o caso em questão, houve quem se pronunciasse afirmando que essa polémica se gerou apenas por causa de invejas. E é por isso que, por precaução, faço um apelo para se ter cuidado, a partir de agora, quando se vê andar pela rua alguém com uma má cara dessa cor, porque, como cantava Elis Regina, “há perigo na esquina”!

 

O verde também é a cor do cash, isto é, do dólar. Não faltaram, de facto, nesse pandemónio que se criou à volta do Verdinho, várias e recíprocas acusações entre os envolvidos sobre as possíveis ganâncias – cobiçadas ou ilícitas – que essa transação proporcionaria.  De resto, não é por um acaso que Ferreira de Castro, no seu célebre romance A lã e a neve já atestou – com a esmagadora, mas genuína sinceridade que carateriza a sua escrita – que “na Covilhã é tudo à força de dinheiro”; e essa frase é tão perentória que só pode suscitar no leitor que a relaciona com o cenário grotesco que se veio gerar por causa do Verdinho o mesmo efeito de uma pedra que, impactando em parede de cristal, a reduze em cacos.

 

Mas será que a cobiça e a inveja (dois dos Sete Pecados Capitais) combinam com a imagem do país que foi passada, no dia 27 de janeiro de 2019, pelo “Presidente dos Afetos” ao receber a confirmação de que o seu “Portugal católico” vai receber, em 2022, as próximas Jornadas Mundiais da Juventude? Ou será que o interior do país é mesmo um mundo a parte? No entanto, à excitação do Presidente da República correspondeu a pontual resposta da Covilhã que abriu no centro histórico um espaço novo, cuja cerejinha no topo do bolo é a placa que vai comemorar in saecula saeculorum que, em 27 de janeiro de 2019, “Dia Internacional da Lembrança do Holocausto”, parte da “cidade-neve” festejava com vinho e presunto.

 

O verde, contudo, é também a cor associada, pela cultura hindu, ao chacra Anahata, que se localiza no peito entre os dois seios; e, por incrível que pareça, um bom desenvolvimento desse chacra, por estar ligado ao coração, desencadearia no surgimento de uma maior quantidade de sentimentos elevados nos seres humanos. Reconheço que, desde um ponto de vista mui pessoal, me entristeceu saber, na altura, que o Verdinho iria fechar; mas, também, hei de admitir (mea culpa!) que sou um sentimental incurável. Ora, seria impossível para mim não criar esse tipo de ligação com esse emblemático espaço da cidade da Covilhã pois, cada vez que lá ia, era atendido de forma tão simpática e calorosa pela dupla formada por Vítor e Pedro. O sentimento da saudade impõe-se de forma inexorável se me demoro em lembrar quantas vezes resolvi ficar junto com a minha companheira ao abrigo do teto da esplanada que, mesmo deixando filtrar algumas gotas de água, nos resguardava das intempéries invernais; e, ao mesmo tempo, era impagável contemplarmos a valentia dos dois empregados que, alternadamente, desafiavam o mau tempo para nos entregar à mesa dois cafezinhos quentes adocicados com a frase: “Vocês são muito corajosos, pá!” No verão, pelo contrário, a esplanada aberta do Verdinho era o melhor lugar para fugir do calor do tórrido sol serrano, e também donde, fumando um cigarro atrás do outro, era possível seguir, desde uma perspetiva privilegiada, a rotina covilhanense – nessa época do ano ainda mais reduzida e preguiçosa. Alguém, lendo isso, poderia até chegar a pensar que me tornei português...

 

O verde também é a cor do famoso caldo que é tão caraterístico de Portugal que deu a volta ao mundo graças ao fado “Uma casa portuguesa”; aliás, de acordo com um amigo meu artista, que costuma afirmar que “cada fado é um pequeno compêndio de filosofia”, me atrevo a dizer que essa música em particular reflete uma das facetas que mais amo da portugalidade, que é a simplicidade. E o Verdinho, apesar de não ter nenhum “São José de Azulejos”, era, na sua sobriedade, uma autêntica casa portuguesa.

 

E o verde, no fim das contas, é sobretudo a cor da esperança. Considero que é bastante contraprodutivo, em prol de todo esse sentimentalismo que se abriga nalgumas almas, não ver como positivo que alguém tenha iniciativa e concretize feitos para que espaços da cidade não fiquem ao abandono. Inclusive, o espírito do lugar não se perderá desde que se aceite essa nova realidade e que se continue o legado de fraternidade que sempre me pareceu tão próprio do Verdinho. Digo isso como italiano, cujo vínculo de irmandade com Portugal é tão forte que – apesar dos vários e reiterados choques culturais que continuam acompanhando as minhas vivências em terras lusitanas, devido à existência (e ainda bem que seja assim!) de inúmeras diferenças entre esses dois países – nunca me esqueço que até nas nossas bandeiras há duas cores em comum, uma das quais é mesmo o verde.

 

Por essa razão – e para declarar, por minha parte, encerrado esse caso verde, verdinho – digo aos covilhanenses, parafraseando o final do Conde de Montecristo, só “que esperem, e que tenham esperança”.

 

 
Riccardo Cocchi
 
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