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Quando a doença e as dificuldades separam companheiros de uma vida

2010-07-28
 


 

“Já não é a primeira vez que vejo estes pares desemparelhados porque não têm dinheiro para ficar juntos num lar e não querem sobrecarregar os filhos”

 

A senhora M tinha 72 anos. Impressionava não só pela pequena estatura e pela expressão viva do olhar mas sobretudo pelo tamanho. A senhora M, apesar de pequena, era muito volumosa. Tinha insuficiência cardíaca e asma, hipertensão, hipercolesterolémia - das más, como dizia, só não tinha diabetes. A razão da consulta era variada: desde as dores nos joelhos e nas ancas, passando pelas dores de cabeça, e as dores nos braços, e os desmaios e as faltas de memória e a falta de ar à noite…Tentei perceber o que era mais importante, mas as queixas sucediam-se – afinal quando se vai ao médico é para dizer tudo…Não é difícil com 72 anos ter dores - tenho-me apercebido de que se pode envelhecer graciosamente a nível cerebral, e até parecer ter rugas com menos 20 anos do que nós. Os ossos e as articulações não perdoam, e têm a idade real e as dores próprias de cada idade. A senhora que a acompanhava acabou por me explicar que a senhora M estava no lar há 2 meses – porque o marido não conseguia tomar conta dela, já que a senhora tinha vários episódios de perdas de conhecimento. As coisas sucediam-se sem aviso, a senhora estava bem e de repente caía para o chão e ficava como morta. Ora a senhora M pesava 110 kilos e o marido 70 - eram da mesma idade e estatura, mas por uma questão de física, a mobilização da senhora M. pelo marido era impossível. Ela ficava no chão e ele sentava-se ao lado dela muito aflito sem saber o que fazer. A família concordou que pelo menos no Lar, se ficasse no chão, alguém a levantava… E eram precisas duas pessoas. O marido da senhora M não quis ir para o Lar porque era caro e era uma sobrecarga para os filhos - já que eles os dois não tinham reforma suficiente - isto dito na consulta seguinte sem os filhos ouvirem. Mas estava tão triste que fazia dó. A mulher era a companhia de mais de 50 anos - “já quase nem precisávamos de falar e entendíamo-nos com os olhos, sabe? Dá jeito sobretudo quando temos de gerir 4 filhos, noras e genros; é preciso muita sapiência de vida…”.

 

A história acabou por ter um final feliz - a senhora M tinha um problema no coração, que, de vez em quando, resolvia ser anarquista e zás, parava. Apesar da idade, da gordura e das doenças, a senhora M teve direito a um “pace-maker” e ficou bem. Já voltou para casa e começou a perder peso com medo de lhe suceder outra. 

 

Já não é a primeira vez que vejo estes pares desemparelhados porque não têm dinheiro para ficar juntos num Lar e não querem sobrecarregar os filhos. Assim como um dos sinais iniciais da crise foi o regresso dos avós dos lares porque as reformas deles de repente eram necessárias para os filhos. E ainda anda para aí muito velhinho a passar mal para poder ajudar os filhos coitados, que estão em Lisboa desempregados. E mais… a senhora F que fez uma anemia porque só comia batatas para poupar dinheiro para ir ver a filha na França - e sempre se lhe dá qualquer coisinha doutora, então é a minha filha! E eu já não preciso de comer muito, nem tenho fome…

 

Também se vê o reverso da medalha - filhos que poupam para ajudar os pais, que os levam a todas as capelinhas e mais uma para ter a certeza de que está tudo a ser feito para melhorar a situação, que vêm de Lisboa 2 a 3 vezes por semana, e deixam tias e vizinhas e amigas de telefone em punho - e diga-me qualquer coisa, que eu venho logo. Conheço pelo menos dois doentes com Alzheimer avançado e que têm uma filha a tempo inteiro com eles – provavelmente não teriam sobrevivido tanto tempo sem esses cuidados. Nem todos conseguem isso - há poucas filhas que tenham hipótese de não trabalhar para cuidar dos pais, mas quando isso é possível, os resultados estão à vista. E irmãos que se juntam para pagar os estudos de um sobrinho, filho de pai divorciado e desempregado. O pouco torna-se muito nas mãos de gente assim.

 

Vem isto a propósito da crise económica - e das muitas crises que cada um de nós vai atravessando ao longo do ano, nos vários pequenos mundos em que nos movemos. Costumava-se dizer na minha juventude que a maior riqueza na vida eram os amigos – mas, de facto, em tempos de crise os amigos tendem a não estar, ou a ficar de lado, se calhar até sem saber bem o que fazer…Em tempos de crise, de qualquer crise - só temos mesmo por nós a família - os pais, os filhos, até os irmãos, mesmo que sejam de outra cor política ou nos façam a vida negra de vez em quando.

 

Depois da crise económica nos EUA há movimentos de cidadãos a apoiarem o regresso a uma vida muito mais simples, com um consumismo mínimo, a voltarem-se para os produtos feitos em casa e a reiniciarem o processo de poupança, já tão esquecido – e também a voltarem a conceitos tão esquecidos como o da família – não como um foco de discórdia e de intrigas, mas como um foco de entreajuda e de apoio nos maus e bons momentos. O processo reflecte-se inclusivamente nas séries que são exportadas. Talvez seja a altura de, por uma vez, seguirmos na peugada dos americanos com alguma convicção de que estão no caminho certo.

 
Assunção Vaz Patto
 
Tags: opiniao, saude,
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