As estatísticas mostram o êxodo do Interior, mas há quem faça o percurso inverso e tenha trocado a grande cidade por uma vida mais próxima da natureza, onde “se dá valor a outras coisas”
 
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Eles deram asas ao sonho

2019-04-03
 


 

As estatísticas mostram o êxodo do Interior, mas há quem faça o percurso inverso e tenha trocado a grande cidade por uma vida mais próxima da natureza, onde “se dá valor a outras coisas”

 

 

É no desvio que, por vezes, está o caminho. São situações inesperadas e aparentemente desfavoráveis que podem transformar um antigo desejo difuso em realidade. É quando se sacode o medo de ousar e a determinação se sobrepõe aos receios do desconhecido que é possível quebrar as amarras de uma vida que nos suprime e não entusiasma, para abrir as janelas para um futuro diferente.

 

Foi o caso de algumas pessoas que decidiram trocar o frenesim do grande centro urbano em busca de uma vida mais tranquila na aparente pacatez da região e em maior contacto com a natureza.

 

“Apraz-me muito ir para a Torre e não me cruzar com um único carro, enquanto ouço as notícias do trânsito lento ou parado na Segunda Circular ou no IC 19, onde passei tantas horas”, compara Nuno Marques, o antigo contabilista, de 42 anos, que há sete se mudou da Amadora para as Penhas da Saúde e é instrutor de esqui e de snowboard.

 

Com Mancha, como é conhecido no meio dos desportos de Inverno, veio a namorada, Taila Wong. Cresceu nos bastidores dos estúdios da Globo, no Brasil, onde trabalhavam pais, a avó, e, à distância, era esse o mundo em que se imaginava. Veio para Portugal e regressou ao Rio de Janeiro, onde estudou Cinema e trabalhou em teatro. Quando voltou a solo luso, foi contagiada pela paixão de Mancha, que desde que vinha à Serra da Estrela brincar com a neve e fazer “sku”, em criança, ambicionava um dia poder morar no recato das Penhas Douradas.

 

A avó era de Teixeira, Seia, e à medida que foi crescendo foi-se aventurando na montanha, em visitas e caminhadas frequentes. Trabalhou oito anos em contabilidade, era bem remunerado e os picos de trabalho não o afligiam. Gostava do que fazia. O mesmo não se pode dizer das convenções sociais impostas. Assim que a empresa fechou, deixou de cortar o cabelo outrora sempre dentro das normas. Hoje, as longas rastas douradas brilham ao sol demasiado quente para os primeiros dias de Primavera, sobre as roupas largas do que se tornou em 2016 seleccionador nacional de snowboard.

 

O casal vinha muitas vezes à Estância e era “sempre bem recebido”. Mancha passou a fazer 700 quilómetros diários como estafeta e Tata, como é tratada, era produtora de vídeo. Trabalhou com nomes prestigiados do cinema. “Eu achava que já tinha uma coisa que gostava de fazer, só que encontrei uma coisa de que gostava mais de fazer”, sintetiza Taila Wong, 32 anos. Vir morar para as Penhas da Saúde foi “juntar o útil ao agradável”. “Foi uma decisão não precipitada, mas rápida”, completa Mancha.


“Incomodava-me a ideia de viver sem propósito”


Quando Márcia Luz, 37 anos, abre a porta da sua casa em Vale de Prazeres, o cheiro a rosmaninho invade-nos. As flores campestres decoram a casa. A licenciada em Publicidade e Marketing trabalhava na área, mas não se sentia realizada, mudou de empresa, sem que essa sensação desaparecesse. “Incomodava-me a ideia de viver sem propósito, apenas para pagar as contas”, frisa. Sentia insatisfação e queria mudar de vida. Precisava de um tempo para pensar e, sem ter um plano concreto delineado, veio passar uma temporada no concelho do Fundão, para testar a vida numa comunidade e numa quinta, “uma experiência muito boa viver a um ritmo mais lento”, embora com a dureza do trabalho no campo.

 

Depois viajou. Na Moldávia conheceu o namorado, Eric, esteve um tempo no México, viveram um ano na Alemanha, voltaram e tiveram o filho, Samuel, de três anos, que tem a sorte de viver num local onde “se tem mais tempo”, conta, no pequeno terraço povoado por plantas aromáticas, ladeado por laranjeiras viçosas. Na divisão ao lado, está o armário onde guarda sabonetes naturais de várias formas e cores, e de onde escapa um aroma agradável.

 

Márcia não é a mesma pessoa de há cinco anos. Deixou a quinta comunitária e vive há poucos meses apenas com a família, sem condutores impacientes a buzinarem ou gente que se cruza diariamente sem nunca dirigirem palavra. Faz ateliers para ensinar técnicas que aprendeu, está a frequentar um curso, em Lisboa, de doula, assistente preparada para dar suporte emocional, físico e informativo, no pré, durante e pós-parto. Eric faz trabalhos agrícolas nas quintas de amigos e vizinhos. Ambos têm a sustentabilidade como princípio de vida e envolvem-se activamente nas causas em que acreditam.

 

“Foi o coração que nos trouxe”


Quando se entra na discreta porta da loja Parágrafo Seguinte, na Covilhã, à Fonte das Galinhas, fica-se surpreso com a invulgar diversidade de publicações nacionais e internacionais de todas as áreas. Revistas que vão da música à arquitectura, da filosofia ao design, do automobilismo à secção cor-de-rosa, da moda à imprensa diária. Ao balcão está Sandra Bordalo, 40 anos, sorriso amplo e prosa fácil, e o marido, Luís, 47 anos, fala pausada, conhecedor do conteúdo das centenas de revistas que o ladeiam.

Já era assim no Chiado, onde os clientes eram também amigos e por onde passava gente mediática de todas as áreas. Até que, em 2015, a autarquia vendeu o edifício a um investidor. No total, tinham três lojas e “uma vida de correria, muito intensa”. Iria ser incompatível manter toda a estrutura e era necessário tomar decisões. Vender o que tinham lá ou as propriedades em Caria e Monte do Bispo, de onde o pai de Luís saiu aos 14 anos “numa camionete de batatas”, e onde passava férias com os avós a tomar conta dos cabritos e a comer tomate com sal.

 

Luís Bordalo pensava em como seria morar aqui, mas era mais uma quimera do que algo concretizável. As circunstâncias profissionais e problemas de saúde da mãe, que pretendia ver num sítio mais tranquilo, fê-los tomar a decisão. “Foi o coração que nos trouxe para aqui”, sublinha Sandra, incapaz de trocar a quinta em Monte do Bispo, onde tem os gatos, pelo apartamento em Caria. Os anos de 2016 e 2017 serviram para estudar e para se dedicarem à agricultura. “O pai dele dizia que ele não tinha jeito nenhum para a horta”, graceja a esposa, que ao mesmo tempo nota que, ao trabalhar a terra que foi do progenitor, Luís se sente “mais próximo do pai”, já falecido. Sandra aprendeu a jardinar e considera ter sido “terapêutico”.

 

Há meio ano acharam que podiam “fazer alguma coisa” com o seu saber-fazer acumulado, numa zona onde não existia a oferta criada e abriram a Parágrafo Seguinte na Covilhã, por ser uma cidade universitária.

 

Qualidade de vida


Em comum têm a convicção de que entre o deve e o haver, ganharam mais do que perderam com a opção. Qualidade de vida é mencionada por todos. Passaram a viver com outro vagar, com maior paz, sossego, num meio onde é mais fácil ter acesso a alimentos saudáveis a comprá-los a preços mais baixos. Sandra e Luís perderam dez quilos com as mudanças na alimentação e com “o ginásio” que é a quinta. Mancha e Taila valorizam poder sentir a brisa fresca da manhã, a paisagem a perder de vista, caminhar na neve virgem, passear a cadela Sininho, não serem escravos do telemóvel, que o instrutor nem tem, a segurança e estarem perto dos desportos de neve.

 

Márcia aprecia poder “viver com menos aqui”, o custo de vida mais baixo, o contacto com as pessoas, sentir-se mais saudável, poder cozinhar sem pressas, ter tempo para o filho, “não andar a correr” e, a meio do dia, se lhe apetecer, fazer pilatos ou yoga, sem o stress da capital.

 


“Demos o passo que muita gente gostava de dar”


“Sinto que demos o passo que muita gente gostava de dar”, analisa Mancha. Os carros estavam pagos, não tinham filhos e, apesar da sazonalidade do trabalho, escancararam a porta à vontade que sentiam e deixaram-na entrar.

 

Márcia Luz vai com frequência a Lisboa e sente curiosidade em relação à sua mudança de vida, embora reforce que nem toda a gente seria feliz a viver segundo a sua filosofia. Por outro lado, enfatiza nem todos terem o destemor para darem asas ao sonho.

 

“Para algumas pessoas é mais fácil ficar na zona de conforto do que dar o salto para o desconhecido. Eu ter-me dado a oportunidade de experimentar, mudou tudo. Ganhei tranquilidade para ser feliz”, diz.

 

Quando tomou a decisão, a família ficou sobretudo preocupada “por largar a segurança do emprego estável”. O pai de Mancha, militar, visita-o quase todos os fins-de-semana e também sentiu o apoio da mãe. “O que ela quer é que eu me sinta bem”, comenta. Já a mãe da friorenta Taila, só anos depois de a instrutura de esqui se mudar é que lhe confidenciou a estranheza por vir para um sítio com temperaturas tão baixas, mas o frio foi superado assim que aprendeu a vestir-se por camadas.

 

A falta do mar e das pessoas


Aquilo de que sentem mais falta é da melodia do mergulhar das ondas, do cheiro a sal do mar e dos amigos e família que não veem tanto quanto queriam. Sandra Bordalo atenua essa privação com o fascínio pelos rios e praias fluviais que abundam na região. Luís Bordalo tem saudades das sessões de cinema. Márcia Luz sente falta de oportunidades e da diversidade cultural. Fica atenta aos eventos previstos para a Beira, mas não pode decidir no própria dia escolher o que fazer, porque a oferta não é comparável ao que estava habituada.

 

Nenhum se arrependeu de ter vindo, só que nem tudo são rosas. Há espinhos a domar. A loja de Sandra e Luís ainda não é rentável, mas mostram-se confiantes de que o perfil diferenciador da Parágrafo Seguinte vai vingar, até porque, além da quantidade, estão atentos aos novos pedidos dos clientes. Vieram para “construir algo” e Sandra partilha que “ter podido escolher é como ter morrido e estar a viver uma nova existência”.

 

Márcia continua a absorver todos os conhecimentos agrícolas com os mais velhos. O campo é pleno de sensibilidade, mas também de rudeza e confessa que, depois do enamoramento inicial, não estava preparada para a dureza e exigência de trabalhar a terra. Por outro lado, o mercado aqui é pequeno para escoar com facilidade os seus sabonetes naturais artesanais, ao contrário do que acontece na Alemanha, ou para conseguir um número razoável de interessados nos seus workshops.

 

Anos como este, quase sem neve, têm maior impacto em quem vive dela. Os nevões que chegavam até meio da porta da avó deixaram de ser frequentes. Em sete anos, “só um foi proveitoso”, conta Mancha. Por isso no Verão ele costumava ir fazer jardinagem em Inglaterra e Taila trabalhar nos armazéns da Amazon. No ano passado, para compensar a sazonalidade de quem ensina outros a esquiar, a fazer snowboard ou roller ski, áreas em que têm formação, criaram a Let`s Sup. Taila fez o curso e agora oferecem a possibilidade de as pessoas descobrirem as lagoas, da Serra da Estrela ou outras, a remar em cima de uma prancha. Um projecto ainda embrionário, mas já com vários entusiastas, até porque é para a família toda, até o cão, como costuma acontecer. “Nós achamos que não é viável, mas sentimo-nos bem aqui, por isso temos as alternativas à sazonalidade”, acentua o seleccionador nacional de snowboard.

 

“Fazem-me confusão as portagens”


O futuro passa pela região. Pelo menos, é esse o horizonte. Mancha e Taila dão um prazo de cinco anos para ver se o plano para o ano inteiro resulta. A Márcia agrada-lhe esta harmonia com a natureza, a reutilização, o fazer ela própria. As opções escolares do filho podem ser um condicionalismo. Não para já. “Gosto de ter tempo para me conhecer e saber aquilo que quero. Não quer dizer que no futuro não queira experimentar outro tipo de vida”, deixa em aberto.

 

Viver no Interior, consideram “é um privilégio”, mas ao mesmo tempo penalizador para quem aqui quer construir vida, ter um negócio ou se quer movimentar sem constrangimentos. Quando Mancha, nascido na Lapa, saiu da Amadora, “tudo parecia mais fácil”. Até perceber que o percurso “não são 2h30, são cem euros”.

 

“Fazem-me confusão as portagens. Isolam mais o Interior. Num país onde tudo está centralizado, sinto as portagens como um castigo”, insurge-se Márcia Luz, que defende medidas políticas concretas para o desenvolvimento e atração nos territórios com pouca densidade populacional. “Fazem falta pessoas. Há poucas crianças nas aldeias. É triste ver mais gente a morrer do que a nascer”, continua.

 

Apesar das assimetrias, vale a pena. Dá-se “mais valor a outras coisas”. Ao cheiro da terra, à dança que o vento provoca, às actividades ao ar livre, como as que Mancha e Taila, olhos verdes, casaco pelos ombros e gorro sobre a pele bronzeada, costumam fazer: acampar em sítio improváveis, ir à carqueja, apanhar amoras, castanhas ou cogumelos.

 

 

 
Ana Ribeiro Rodrigues
 
Tags: Interior, Mudar de Vida, Penhas da Saúde, Monte do Bispo, Vale de Prazeres, Parágrafo Seguinte, Let`s Sup.
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