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Mulheres de Abril

2018-04-24
 


 
As mulheres que, na sombra, ajudaram a construir Abril

 

Pilar Lourenço recebia com cautelas os finos rolos de papel, dissimulava-os no saco do almoço, entrava na fábrica bem cedo e distribuía à socapa os panfletos por todas as máquinas, para que os restantes trabalhadores, quando entrassem ao serviço, lessem as mensagens onde se pedia maior e melhor justiça social, num tempo em que as desigualdades eram ainda mais gritantes.

 

Hoje com 73 anos, Pilar Lourenço, nascida e criada no Casal da Serra, trabalhou 40 anos na Fábrica Moura e Matos, no Tortosendo, onde entrou com 19 anos. Na memória guardava o dia em que o pai aderiu a uma greve e foi procurado pela GNR “a cavalo”. Maior marca deixou a prisão de um tio, em Dezembro de 1963, “na Fábrica do Ribeiro”. Uma das dezenas de presos políticos, militantes ou suspeitos de terem ligações ao Partido Comunista, detidos nesse ano na Covilhã e na vila. Acabaria por ficar na prisão de Caxias quatro anos.

 

A jovem, com a quarta classe, não era politizada, mas tinha nela a semente do inconformismo e revelou-se destemida. Talvez pelos seus laços familiares, foi contactada, por conhecidos, para distribuir panfletos clandestinos. Aceitou o desafio. Afinal, olhava à volta e “não estava de acordo com muitas coisas que via na fábrica”. Antes lembra-se de ter apanhado um dos muitos papéis coloridos, “caídos do céu”, de apoio à candidatura de Humberto Delgado, que “guardou no forro da casa, muito velhinha”, e que os ratos acabaram por mutilar. Agora era ela a encontrar forma de afrontar o espartilho imposto pelo Estado Novo, que se traduzia numa multiplicação de proibições.

 

“Eu tinha de ir quando não havia ainda ninguém na fábrica e punha os papéis em todas as máquinas. Outras vezes tinha de vigiar o mestre, quando se ia vestir. Era eficaz, porque os trabalhadores liam o que estava escrito. Uns deitavam os papéis para o lixo, outros guardavam-nos”, recorda Pilar Lourenço, que durante a vida viria a ser delegada, dirigente sindical e sempre interventiva.

 

“Orgulho-me de não ter ficado a olhar”


O medo existia, mas era combatido com a convicção de que estava a fazer o que era certo e o risco era calculado. Apenas uma colega sabia o que fazia. “Estava-me sempre a dizer para ter cuidado”, conta. Mas movia-a a realidade em que vivia. O meio operário em que se ganhava abaixo das necessidades mínimas. Em que a ostentação de muitos patrões contrastava com as condições de vida “abaixo do limiar da dignidade” de tanta gente. “Alguns tinham tudo e tantos trabalhavam tanto e não tinham sequer para viver com dignidade. Não podemos aceitar isso”, reforça.

 

Hoje sente-se honrada por ter dado o seu contributo para um melhor amanhecer. “Orgulho-me de não ter ficado a olhar”, acentua. “Se não houvesse quem contestasse, até nos comiam vivas. Éramos espezinhadas por mandarecos e por patrões”, salienta. E era esse “sentido de injustiça” que lhe dava motivação para consciencializar quem podia.

 

Na altura, na região, poucas mulheres tiveram protagonismo, o que não significa que várias não tivessem desempenhado um papel importante. Muitas na retaguarda. “Até parece que elas não existiam, mas tinham mais tarefas, tinham menos tempo livre do que os homens. Algumas eram repreendidas pelos maridos quando tinham intervenção”, diz Pilar Lourenço. Uma das coisas que não esquece foi quando a mãe teve de voltar à fábrica duas semanas depois do nascimento do irmão e era ela que levava o bebé ao colo ao trabalho da mãe, para lhe dar de mamar.

 

Hoje tem a convicção de que a sua acção foi importante para que as mulheres conquistassem direitos laborais e possam agora ter mais espaço na vida pública.

 

(Reportagem completa na edição papel)

 
Ana Ribeiro Rodrigues
 
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