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Covilhã recebeu centenas de refugiados há 40 anos

2016-03-16
 


 

Chamavam-lhes retornados. Na maioria dos casos, eram refugiados. Nunca tinham estado em Portugal, não tinham família na região nem no País, foram obrigados a fugir da guerra e ficaram alojados no antigo Sanatório. Passadas quatro décadas, revêem-se nas pessoas que em desespero arriscam a vida para chegarem à Europa

 

Tornou-se recorrente nos últimos meses. Sempre que as imagens de refugiados a tentarem entrar na Europa irrompem pelo televisor, numa sequência de cenas pungentes que se repetem diariamente, Eugénia Mendonça, 68, não consegue conter a comoção.

 

A situação de gente em desespero, que deixou toda a sua vida para trás, o choro das crianças, a aflição de quem não sabe o paradeiro de familiares, o cansaço de uma jornada a fugir da guerra, o medo e a incerteza do futuro.

 

Eugénia assistiu a tudo isso e a actual crise migratória transporta-a no tempo, quando também ela se viu obrigada a sair de uma Angola em conflito.

 

Embora num contexto diferente, porque sabia para onde ia, fez um percurso também ele duro, que lhe deixou marcas difíceis de apagar. Aquelas que se revelam quando fica “lavada em lágrimas” a olhar hoje para a televisão.

 

Eugénia Mendonça fez parte do mais de meio milhão de repatriados das antigas colónias que chegaram a Portugal depois do 25 de Abril. A maioria em 1975. A Covilhã acolheu um grupo numeroso, faz este mês 40 anos. Foi em Março de 1976. Retardaram ao máximo a decisão de partir. Não queriam vir, esperaram que a situação melhorasse, mas a insegurança galopante obrigou-os a deixar tudo sem tempo de se despedirem ou olharem para trás. Quem veio antes pôde-se organizar. Enviar as memórias e os pertences de uma vida num contentor. Os que vieram parar à Covilhã não o puderam fazer. “Já não tínhamos nada. Só as coisas mais preciosas: as nossas vidas e os nossos filhos”, avalia.

 

Com grande parte das unidades hoteleiras do País já ocupadas, foram enviados para um hotel na Serra da Estrela, que afinal era o antigo Sanatório. Na primeira semana chegaram 550, quase todos do sul de Angola, da zona de Sá da Bandeira. A certa altura, eram cerca de 800, embora depois se fossem dispersando.

 

Chamavam-lhes retornados, mas a maioria nunca tinha estado na “metrópole”. “Como é que se pode regressar a um sítio onde nunca se esteve?”, repetem. “Eu considerava-me retornada, porque era isso que me chamavam, mas não era isso que eu era”, diz Eugénia.

 

Em rigor, a sua situação era a de refugiados. Maioritariamente eram portugueses de terceira e quarta gerações. Não tinham no “rectângulo” familiares directos a quem pudessem recorrer. Vieram com a intenção de regressar assim que possível àquela que consideravam a sua terra, mas a guerrilha e a guerra civil que se prolongou fez com que a Covilhã fosse o ponto de partida para uma nova vida.

 

A difícil decisão de partir

 

Eugénia era professora primária em Pereira de Eça, actual Ondjiva. O marido, fiscal de caça, tinha um bom salário e os privilégios de funcionário público, como a casa do Estado. Não eram ricos, mas viviam desafogadamente. Tem uma avó madeirense, mas toda a sua vida e referências estavam no Portugal africano. Foi lá que nasceu, era o hino português que cantava todos os dias na escola, a bandeira portuguesa era a única que alguma vez conheceu, mas os costumes, as vivências, eram as de Angola. A província do Cunene era o seu território e a sua geografia de afectos.

 

Os amigos iam partindo. O casal esperando. Mudaram-se para Sá da Bandeira quando o medo aumentou. Eugénia nunca sentiu na pele a violência, só que ouvia os estilhaços na parede, os tiroteios durante a noite. Havia gente assassinada, conhecidos que desapareciam, os controlos apertados na rua, abordagens de pessoas que não sabiam quem eram. “Tenho um primo que ainda hoje não sabemos o que lhe aconteceu”, recorda Eugénia, postura tranquila e pacificada com um passado turbulento.

 

Quando as tropas sul-africanas informaram que iam retirar e não poderiam continuar a garantir a segurança dos residentes, com quatro filhos pequenos, perceberam que não era momento para teimosias. Tomaram a decisão após a coluna militar ir embora. Apanharam a caravana mais à frente. “Fui eu que tomei a decisão, e foi muito dura de tomar”, lembra Eugénia. Só houve tempo para meter umas roupas dos filhos no carro. “Os álbuns do casamento, dos baptizados, os objectos das crianças. Não tenho nada. Quando vejo pessoas a mostrarem as fotos do casamento, dos filhos pequenos, eu não tenho nada disso”, lamenta, resignada. A memória mais vincada do momento é a dos filhos no banco traseiro do carro, com os olhos fixos no cão “Bolinha”, que tiveram de abandonar e cuja imagem se tornava mais distante à medida que o automóvel avançava, perante o choro compulsivo das crianças.

 

Quando passaram pela casa em Pereira de Eça, estava saqueada. Restou uma velha máquina de costura, que conseguiu fazer chegar a Portugal. Quando a coluna passava a fronteira, cantava-se, tocava-se, havia adultos e crianças e chorar, outros desmaiavam. Foi assim o adeus a Angola. Não imaginavam que por tanto tempo. Cumprida essa etapa, a prioridade do casal Mendonça foi vender o carro e conseguir rands.

 

“As pessoas desapareciam”

 

Quando os pais e os irmãos apanharam a “ponte aérea”, em 75, Conceição Freitas ficou com o namorado. A despreocupação dos 18 anos não lhe permitia avaliar com acuidade a real situação. Depois da independência, uma das principais diferenças foi ver que “os indígenas passaram a circular pela cidade”. Mas o perigo tornou-se próximo, fruto das disputas entre MPLA, UNITA e FNL. Iam buscar gente a casa que nunca mais se via. Havia tanques de guerra na rua. Postos de controlo. Certo dia em que ia à padaria, teve de se refugiar num cabeleireiro, quando numa avenida de Sá da Bandeira começaram a disparar e viu gente a tombar no chão. A retirada dos militares sul-africanos fê-la perceber que era o limite.

 

No Saab, acondicionou o que pôde. Da viagem na coluna de quilómetros com viaturas militares a intercalar os muitos carros civis, com os helicópteros do país vizinho a sobrevoar, lembra as paragens para descansar nas tendas de lona e a organização da estrutura. No caminho, enquanto foram tentar substituir uma peça no carro, roubaram-lhes o automóvel. “Arranjámos boleia, mas só ficámos com a roupa do corpo, algumas coisas que estavam em carros de amigos e o dinheiro e ouro que trazia escondidos”, sublinha Conceição Freitas, que vai aliviando o relato de um momento dramático com uma gargalhada de quem é bem-disposto por natureza. Encarou a mudança forçada com a leveza da juventude e a perspectiva do regresso. Nesse percurso sentia-se mais distante daquilo que fugia. “Víamos a paz ali, o sossego”, realça.

 

António Caniço, 65 anos e uma vida ligada ao desporto, era electricista de automóveis no agora Lubango, antes Sá da Bandeira. Meses após o 25 de Abril começou a notar instabilidade. Mais tarde a guerrilha feita no mato chegou à cidade. Vivia-se num temor constante. “Tudo tinha armas. As pessoas desapareciam. Mataram um tio e três primos meus”, conta. “Com muita mágoa por ter de deixar a sua terra, só que também desgastado”, saiu da cidade com as tropas sul-africanas. “Só com a mala com as roupas do filho”, nascido há duas semanas. Passada a fronteira para a Namíbia, à época parte da África do Sul, tentou ficar por lá, até que percebeu ser demasiado tarde. Já muitos tinham chegado antes. “Não havia trabalho para toda a gente”, constatou. Os aviões a sair para Portugal eram uma constante. Só teve de entrar num deles, rumo ao Portugal que só conhecia dos livros da escola.

 

O hotel que afinal era o Sanatório

 

Chegaram ao Aeroporto da Portela, vindos de Windhoek, na madrugada de 10 de Março, cansados, desesperados, com roupa inadequada para as temperaturas que vieram encontrar, sem saberem para onde ir. No dia seguinte chegou a informação que seguiriam para um hotel na Covilhã, terra desconhecida. A única referência era a Serra da Estrela, onde sabiam que caía neve.

 

No aeroporto percebia-se o desnorte de vidas interrompidas, de futuros incertos, o cansaço de grávidas e crianças de colo. Distribuiu-se alimentação, camisolas. Eugénia Mendonça, o marido e os quatro filhos, entre os três e os nove anos, vieram nos três primeiros autocarros. Foram recebidos com um nevão e temperaturas que arrepiavam quem estava habituado a um clima tropical.

 

Os primeiros momentos foram de confusão. Filas para isto e aquilo. IARN, o acrónimo de Instituto de Apoio ao Retorno de Nacionais, entraria no léxico de todos. Foram recebidos pelos delegados desse organismo criado no âmbito do processo de descolonização, por assistentes sociais e pelo casal que tomava conta do edifício. Foram-lhes entregues cobertores. Distribuíram-se quartos. A preocupação da família Mendonça foi assegurar um com casa de banho e ter os filhos próximos. Outros não tiveram a mesma sorte e durante muito tempo tiveram de repartir o espaço de higiene íntima com muita gente estranha.

 

A tensão e os nervos sobravam. Havia famílias desencontradas, mulheres com filhos de dias nos braços. Houve quem se tivesse revoltado quando percebeu que o anunciado hotel era afinal um antigo hospital e quem se tivesse recusado a ficar. Conceição Freitas afastou-se do epicentro das discussões. Enrolou-se num cobertor e foi-se encostar a uma janela a ver cair a neve. “Foi a coisa mais linda que vi. Nunca mais caíram farrapos como aqueles”, sublinha.

 

Para António Caniço “foi um choque grande” a chegada. “Não tinha cá nada nem ninguém que me pudesse orientar. Não conhecia nada”. O IARN assegurava a alimentação e o alojamento. A principal preocupação foi ter comida para o bebé. Depois de instalados, seria organizarem-se, encontrarem emprego.

 

Na edição de 19 de Março de 1976, o Notícias da Covilhã reportava a situação dramática em que a maioria se encontrava. Falava de pessoas “traumatizadas pelos episódios sangrentos vividos”, de gente “com fraqueza”, que pouco tinha comido nos dias anteriores, quase sem bagagem e “pobremente agasalhadas” para fazer frente à rudeza de um clima adverso.

 

Muita gente perdeu familiares chegados, outros não sabiam onde estavam os que lhes eram próximos, chegavam notícias a indicar que familiares tinham morrido, algumas das quais se confirmavam. A reportagem do NC descrevia um “espectáculo desolador” protagonizado por pessoas vítimas de uma guerra fratricida. Alguns tinham como bagagem “somente a vida, chinelos de praia” e pouco mais.

 

Dinheiro trazido pouco valia

 

Apesar de não ser um hotel, “as condições eram aceitáveis”, considera António Carriço. “Não era um hotel, mas tinha condições para nos receber”, reforça Eugénia Mendonça, que salienta não se ter revoltado, porque o que queria era descansar e paz. “Vínhamos de uma guerra e não queríamos outra”, acrescenta.

 

“O que estranhei não foi ficar ali. Pensava que seria uma situação transitória. O mais complicado era lidar com todo o tipo de gente e gerir isso”, enfatiza Eugénia. Conceição Freitas alude à mesma dificuldade. A confusão que lhe fazia estar entre tanta gente diferente, que reagia de forma diferente ao desespero e às contrariedades quotidianas. “Havia de tudo. Do analfabeto ao doutor. Tínhamos de lidar com o feitio de todos”, recorda a antiga pintora de louças, agora cozinheira.

 

Os funcionários públicos tinham a vida facilitada. Seriam colocados nos serviços do Estado, através do “Quadro Geral e Adidos” e enquanto isso não acontecia recebiam 60 por cento do vencimento. Para os outros, o horizonte era menos nítido.

 

A distância do Sanatório à cidade era uma dificuldade para procurar emprego e, quem o conseguia, ir para o trabalho, apesar das carreiras, que nem sempre subiam com os nevões, não era tarefa fácil. A predominante indústria dos lanifícios, por outro lado, era estranha a quem vinha de Angola.

 

José Mendonça, o marido de Eugénia, passou a ser um dos membros da Comissão Directiva dos Refugiados, escolhidos pelos restantes para os representarem. Passados cinco meses António Caniço conseguiu um lugar na sua área. Conceição passou a fazer trabalhos na cozinha, não remunerado, para se manter ocupada, e mais tarde foi para uma empresa de confecções na Boidobra.

 

Nos primeiros tempos Conceição Freitas não tinha noção da sua situação. Tinha trazido ouro, dinheiro que achava que lhe permitia aguentar-se. Ia comprar roupa às lojas da moda, ia almoçar ao Montalto. Até ter de se capacitar que o dinheiro que trouxe de pouco valia, porque no câmbio ficava bastante prejudicada. É da opinião que, tal como acontece agora, houve quem se aproveitasse do desespero e do sofrimento alheio.

 

Recebidos com desconfiança e hostilidade

 

As dificuldades não eram apenas económicas, mas também burocráticas e sociais. António Caniço, combatente no Exército Português junto à fronteira do Congo, teve de tratar da documentação quando chegou e o processo de legalização demorou cinco anos. Há-de ser sempre angolano, embora o Cartão do Cidadão refira que é apenas português. “Na altura eu nem sabia o que era. Éramos portugueses e ponto final”, frisa. Mas quando pediu a dupla nacionalidade, disseram-lhe que não havia relações diplomáticas com Angola e teve de optar pela portuguesa.

 

“Apesar de vir nova, tenho uma revolta dentro de mim. Lá eu vi sempre a bandeira portuguesa, nunca outra. Chegámos cá e já não éramos portugueses”, desabafa Conceição, cujos avós eram naturais do Funchal. “Retornada eu nunca fui. Só se agora fosse para Angola”, acrescenta.

 

O lamento deve-se à desconfiança e hostilidade com que foram recebidos por muita população local. Todos ouviram o que achavam que não mereciam, até porque não tinham vindo porque quiseram. Diziam-lhes que vinham roubar o emprego dos de cá. Que andaram a explorar os africanos.

 

Conceição Freitas, 58 anos, refere a dificuldade em arranjar casa, porque nem todos arrendavam casa a retornados. Vindos de uma sociedade mais aberta e evoluída, as mulheres iam ao café sozinhas e eram censuradas e alvo de juízos de valor por parte de quem cá vivia. Certa vez, na Rua Combatentes da Grande Guerra, Eugénia Mendonça ia a passar e ouviu uma mãe ameaçar o filho que se não acabasse de comer chamava a retornada para o levar. Ter o rótulo de retornado era como que “um carimbo a vermelho”.

 

Para quem era denunciado pela cor da pele, as situações eram mais frequentes. Mas Conceição Freitas empertigava-se e respondia aos comentários racistas e xenófobos. “Nós viemos para salvar a vida. Quando chegámos, éramos pessoas a precisar de ajuda. Deixámos tudo para trás à procura de paz. Mas na Covilhã fomos mal recebidos. Olhavam-nos de alto a baixo”, descreve.

 

António Caniço também sentiu essa má vontade. Não de toda a gente, até porque também houve gestos de solidariedade. “Vivi essa discriminação na pele. Ouvi muita coisa que não devia ter ouvido”, censura. Mas o desporto, a que sempre esteve ligado, facilitou a integração. Acabou por não vir com Seninho para o FC Porto, como esteve previsto. Ainda assim, nunca se arredou do futebol, como jogador e treinador. No início, um escape. “Ajudava a desanuviar. Uma pessoa não tinha tanto tempo livre para pensar”. Eugénia Mendonça dá graças a Deus por ter tido a capacidade de não interiorizar essas invectivas e lembra que racismo há em todo o lado.

 

Eugénia Mendonça não esquece que teve de começar “do sal à água” e que para uns foi mais difícil recomeçar do que para outros. “A adaptação dependeu da cultura de cada um, da sua educação, dos seus pontos de vista”, considera.

 

Prédios do Fundo de Fomento alojaram algumas famílias

 

Para quem tinha filhos na primária, foi destacada uma professora que se deslocava à Porta dos Hermínios para dar aulas. Aos mais velhos o IARN disponibilizava transporte para a escola. Os filhos de Eugénia reclamaram dos lençóis frios, mas adaptaram-se e nunca se queixaram de discriminação por parte dos colegas.

 

O que mais custou a Conceição Freitas foi quando o IARN fez a distinção entre retornados - a quem deu uma verba para saírem do Sanatório e encontrarem o seu próprio alojamento - e os refugiados, o que obrigou à saída das instalações do namorado, de quem estava grávida. A situação fê-la chorar “dia e noite”, por se ver sozinha. Deixou o Sanatório passado um ano.

 

Eugénia Mendonça e a família ficaram mais de três anos no edifício, até conseguirem vaga nas casas do Fundo de Fomento da Habitação, nos prédios construídos nos Penedos Altos para alojar quem veio das antigas colónias, mas que acabariam por acolher também quem foi realojado na sequência da demolição de casas quando foi requalificado o Pelourinho. Também António Caniço esteve três anos no Sanatório, de onde saiu em 1979 para os mesmos prédios.

 

Conceição tem a família espalhada pelo mundo. António Caniço nunca mais viu o pai, que se recusou a abandonar Angola.

 

Covilhã era uma “cidade velha”

 

Quando chegaram à Covilhã viram “uma cidade velha”, “parada no tempo”, porque tinham vivido um futuro que aqui ainda não era presente. Entretanto os que ficaram, uma minoria, criou raízes e não se imagina a regressar. Visitar, sim. Para viver, não. “Ai, quem me dera lá voltar. Se me sair um dinheirinho, é a primeira coisa que vou fazer”, diz Conceição, a rir.

 

António Caniço também gostava de voltar a percorrer os caminhos da infância, embora preveja que fosse uma jornada também dolorosa. Já ao Sanatório, a sua casa quando chegou à Covilhã, nunca mais lá voltou. “Aquilo ficou tão degradado que foi um choque para mim”, justifica. Quando tiver oportunidade, vai querer conhecer as novas instalações, agora uma Pousada de Portugal.

 

A saudade fez Eugénia regressar em 86, em plena guerra, para ver a avó, pais e o irmão, general angolano. “Encontrei uma Angola pior que a que deixei”. Ficou chocada com os contrastes que viu. Há alguns anos, após a reforma, o marido montou lá uma empresa e vai lá com frequência. Com dupla nacionalidade, sente-se “as duas coisas”.

 

Em Eugénia, os tempos de aflição estão cicatrizados, não esquecidos. Conceição não costuma sonhar com esse período menos bom da sua vida. “Penso no sol de Angola, nos caminhos que fazia por todo o lado. Penso mais nas coisas boas. Para quê estar a alimentar o sofrimento”? António Caniço ainda dá por si, às vezes, a matutar no que deixou para trás e na aventura que viveu.

 

Os acontecimentos recentes resultantes da chegada de muitos refugiados à Europa indignam-no, ao perceber que há gente “a aproveitar-se” da sua situação de fragilidade e remetem-no para o seu passado. “Faz-me lembrar aquilo por que passei. Eles estão numa situação pior, porque saem sem saberem para onde vão ou até onde vão chegar”, compara. “Esta gente está mais desprotegida do que nós. Estão a morrer no mar. Consigo-me pôr no lugar deles e respeito, porque estão a passar por muito mais do que nós passámos”, compadece-se São, como é conhecida.

 

 

 

A retornada

“Era como se estivesse escrito na testa que éramos retornados

 

Custódia Mariano, 79 anos, ao contrário da maioria das pessoas que chegaram na “ponte aérea” e foram enviada para o Sanatório, era uma retornada. Estava a regressar, forçada pelas circunstâncias, é certo, à cidade que a vira partir seis anos antes. Partiu dois anos depois do marido e com os três filhos para Lourenço Marques, actual Maputo, em Moçambique. Foi para “uma terra de oportunidades” onde viveu os seus dias mais felizes. O marido, serralheiro mecânico, lá ganhava muito mais. Tinha à disposição uma boa casa da empresa, com quintal, onde plantou árvores de fruto e criou animais.

 

A guerra “era lá longe, para ao pé da Rodésia”. Por isso até troçava das recomendações da família, quando lhe escrevia e pedia para ter cuidado. “Fazíamos a nossa vida, não nos apercebíamos da guerra”. Depois do 25 de Abril as coisas começaram a mudar. A inflação era um problema, tal como a falta de alguns alimentos. Também perderam liberdade. Eram constantemente identificados na rua. Ainda assim, no dia da independência, até foi assistir às cerimónias. Só que o cenário foi-se agravando. Não sentiu a violência na pele, mas o marido viu incendiar casas, matarem pessoas. Já não se sentia segura ao ver os filhos apanharem o “machimbombo” para a escola. Os cunhados e sobrinhos já tinham partido. Adiou ao máximo até tomar a decisão que não queria. Apesar de só ter vindo em Outubro de 1976, não fugiu, apressada. Organizou-se. Enviou um contentor para a metrópole através da empresa do marido, onde vinham a mobília do quarto que ainda tem ou a bicicleta dos filhos.

 

O filho mais novo chorou durante quase toda a viagem de comboio até à Covilhã. Os mais velhos mentalizaram-se que era necessário. Tinha cá a família, por isso não chegou a passar pelo Sanatório. Primeiro ficou em casa de familiares. Dois meses passados o marido conseguiu trabalho e alugaram uma casa, “sem condições”, na zona onde nasceu, junto ao actual pólo principal da universidade. Recuar tanto no nível de vida “foi muito duro”.

 

Para além dessa contrariedade, deparou-se ainda com outra: a recepção pouco amistosa de muita gente. “Era como se tivéssemos uma cruz na testa. Como se estivesse escrito na testa que éramos retornados. Nós estávamos a regressar à nossa terra, mas diziam que vínhamos tirar o emprego aos de cá, numa altura em que ainda havia emprego”, entristece-se.

 

A vida foi-se endireitando. A mudança para as casas do Fundo de Fomento, onde ainda reside, nos Penedos Altos, deu um novo alento. Passados tantos anos, fica o desejo de um dia visitar os locais dos dias felizes.

 

 

 

O sociólogo

Repatriados integraram-se bem depois do choque inicial


José Carlos Venâncio, professor catedrático na Universidade da Beira Interior, compara Camus a Pepetela para explicar uma colonização diferente e a forma como os repatriados das colónias portuguesas se integraram mais facilmente. “Em Yaka, de Pepetela, é um diálogo sempre na integração na realidade angolana, na mundividência angolana. Em Camus há sempre uma perspectiva de exogeneidade”, acentua o sociólogo, numa alusão à descolonização da Argélia e ao movimento pied-noir.

 

No geral, realça, houve uma boa integração dos retornados, que não formaram uma identidade colectiva, antes se diluíram no resto da sociedade, apesar do choque inicial. João Carlos Venâncio lembra que essa população trouxe “hábitos bons e maus” para um País que vivia num regime muito fechado e que acabaram por vir “arejar” a sociedade. Na opinião do sociólogo, nascido em Angola, “teria sido mais difícil a integração de Portugal na União Europeia sem os retornados, que vieram dinamizar a sociedade portuguesa”.

 

Segundo dados do INE, em 1981 havia no distrito de Castelo Branco 10.064 repatriados das antigas colónias, o que representava 4,3 % da população residente.

 

 

 
Ana Ribeiro Rodrigues
 
Tags: Retornados, Refugiados, Sanatório, Covilhã, IARN
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